Colunistas
Sustentabilidade começa em nós: Leana Mattei fala sobre consumo consciente e bem-estar no Vida em Equilíbrio
Podcast Bengalas recebe idealizadoras do projeto “Vó, vai fazer o que hoje?” para debater longevidade, pertencimento e redes de apoio
Bengalas Podcast debate humanização e desafios da institucionalização de pessoas idosas
Artigos
Bets, saúde mental e o desafio de reconhecer quando o jogo se tornou compulsão
Por Juscimária Bezerra
As apostas esportivas nunca estiveram tão presentes na rotina dos brasileiros. Com poucos toques no celular, qualquer pessoa pode apostar a qualquer hora do dia e em qualquer lugar, impulsionada pela promessa de ganhos rápidos e pela sensação de prazer imediato. Mas, enquanto esse mercado cresce em ritmo acelerado, outro fenômeno avança de forma silenciosa: o número de pessoas que desenvolvem uma relação compulsiva com o jogo.
O transtorno do jogo, popularmente conhecido como ludopatia, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. Ainda pouco discutido fora dos consultórios, seus impactos são cada vez mais visíveis. Endividamento, conflitos familiares, dificuldade de se relacionar, ansiedade e depressão fazem parte de uma realidade que ultrapassa a esfera financeira e exige um olhar atento para a saúde mental.
É importante fazer uma distinção. Apostar ocasionalmente não significa, por si só, desenvolver uma doença. O problema começa quando o jogo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. A pessoa perde a capacidade de estabelecer limites, continua apostando mesmo diante de prejuízos evidentes e passa a reorganizar sua vida em função da próxima possibilidade de ganho.
Esse comportamento costuma se instalar aos poucos. Primeiro surge a tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Depois, as justificativas para continuar jogando. Em seguida, aparecem as mentiras, os empréstimos, os conflitos dentro de casa e o sofrimento emocional. São sinais de que o jogo deixou de ser entretenimento e passou a controlar a rotina e as decisões daquela pessoa.
O avanço das plataformas digitais contribuiu para esse cenário. Diferentemente dos jogos tradicionais, as casas de apostas online estão disponíveis 24 horas por dia, oferecem inúmeras modalidades de apostas e utilizam mecanismos que estimulam a permanência do usuário. Essa combinação favorece um ciclo de repetição especialmente perigoso para pessoas mais vulneráveis ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
Por isso, discutir ludopatia é discutir saúde pública. Assim como outros transtornos relacionados à dependência, ela exige informação, prevenção e acesso ao tratamento. O estigma ainda faz com que muitas pessoas demorem a procurar ajuda por acreditarem que o problema é apenas falta de autocontrole ou de responsabilidade, quando, na verdade, trata-se de uma condição clínica reconhecida.
O tratamento existe e apresenta resultados positivos, principalmente quando iniciado precocemente. A psicoterapia, especialmente por meio da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), auxilia o paciente a identificar os gatilhos da compulsão, reestruturar padrões de pensamento e desenvolver estratégias para recuperar o controle sobre sua rotina. Em casos mais complexos, sobretudo quando há sintomas de ansiedade ou depressão associados, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser recomendado.
À medida que o universo das apostas ganha espaço na sociedade brasileira, cresce também a necessidade de ampliar o debate sobre seus efeitos. A regulamentação do setor é importante, mas ela precisa caminhar ao lado da educação, da conscientização e do fortalecimento da rede de atenção à saúde mental.
Quando a aposta deixa de ser uma forma de entretenimento e passa a comprometer a vida social, financeira e emocional, já não estamos falando apenas de um hábito. Estamos diante de uma doença que precisa ser reconhecida, acolhida e tratada.
*Juscimária Bezerra é psicóloga da Hapvida
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Skincare popularizou o FPS, mas ele substitui o protetor solar?
Por Laryssa Faiçal e Paula Strauch Cost
O interesse por skincare transformou a forma como muitas pessoas cuidam da pele. Hoje, hidratantes, bases, séruns e outros cosméticos com fator de proteção solar (FPS) fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. Essa evolução representa um avanço importante na conscientização sobre os danos causados pela radiação ultravioleta. No entanto, também trouxe uma dúvida que merece atenção: será que produtos de skincare com FPS substituem o protetor solar tradicional?
A resposta é não.
Embora os cosméticos com FPS contribuam para a proteção da pele, eles não foram desenvolvidos para desempenhar o mesmo papel do protetor solar e, quando utilizados como única forma de defesa contra a radiação solar, podem transmitir uma falsa sensação de segurança.
O câncer de pele continua sendo o tipo de câncer mais frequente no Brasil. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados 263.280 novos casos por ano entre 2026 e 2028 de câncer de pele não melanoma, o tumor de maior incidência no país. A principal causa está na exposição excessiva e acumulada à radiação ultravioleta ao longo da vida, o que torna a fotoproteção uma medida indispensável.
Grande parte da confusão em torno dos cosméticos com FPS está relacionada à forma como eles são utilizados. O fator de proteção informado nas embalagens é determinado em testes laboratoriais, nos quais é aplicada uma quantidade padronizada de produto sobre a pele. No dia a dia, porém, essa quantidade dificilmente é reproduzida.
No caso de uma base ou de um hidratante facial, por exemplo, normalmente utilizamos apenas o suficiente para proporcionar cobertura ou hidratação. Isso significa que a proteção efetivamente obtida costuma ser inferior à indicada no rótulo.
Outro aspecto importante é a reaplicação. O protetor solar deve ser reaplicado ao longo do dia para manter sua eficácia, especialmente em situações de exposição contínua ao sol, transpiração intensa ou contato com água. Já a maioria das pessoas não reaplica maquiagem ou hidratantes diversas vezes ao dia, fazendo com que a proteção diminua progressivamente enquanto a pele permanece exposta aos raios solares.
Essa diferença faz toda a diferença quando pensamos na prevenção do câncer de pele.
Existe ainda um equívoco bastante comum: acreditar que apenas longos períodos na praia ou na piscina representam risco. Na realidade, a exposição solar acontece durante atividades rotineiras, como caminhar até o trabalho, dirigir, praticar exercícios físicos ao ar livre ou permanecer próximo a janelas. Essas pequenas doses diárias de radiação ultravioleta se acumulam ao longo dos anos e contribuem para o envelhecimento precoce da pele e para o aumento do risco de desenvolvimento de tumores cutâneos.
Isso não significa que os cosméticos com FPS devam ser descartados. Pelo contrário. Eles representam uma camada adicional de proteção e podem complementar os cuidados diários, especialmente quando associados ao uso correto do protetor solar. O problema surge quando passam a ocupar o lugar do principal agente de fotoproteção.
A prevenção do câncer de pele depende de um conjunto de medidas. Além do uso diário do protetor solar em quantidade adequada e de sua reaplicação ao longo do dia, é importante adotar hábitos como utilizar chapéus, roupas com proteção UV, óculos escuros e buscar locais com sombra nos horários de maior intensidade da radiação solar.
Vivemos um momento em que o autocuidado ganhou protagonismo e o skincare passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas. Essa mudança é positiva e deve ser incentivada. Mas também é fundamental compreender a função de cada produto. Cosméticos com FPS são aliados importantes, porém não substituem o protetor solar. Quando o objetivo é prevenir o câncer de pele, o cuidado mais moderno continua sendo apostar na proteção mais eficaz.
*Laryssa Faiçal é dermatologista | CRM 19400 / RQE 7211
*Paula Strauch Costa é cirurgiã oncológica | CRM 36041 / RQE 27850 RQE 28874
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Hidradenite Supurativa: por que uma doença relativamente comum ainda leva anos para ser diagnosticada?
Por Gleison Duarte
Imagine conviver durante anos com lesões dolorosas, recorrentes, que surgem principalmente nas axilas, virilhas, nádegas ou abaixo das mamas. Imagine procurar diferentes profissionais de saúde, receber diagnósticos variados, ser tratado repetidas vezes como portador de infecções ou furúnculos e, mesmo assim, continuar sofrendo com os mesmos sintomas.
Essa ainda é a realidade de muitos pacientes com Hidradenite Supurativa (HS), uma doença inflamatória crônica que afeta aproximadamente 1% da população mundial e que continua sendo subdiagnosticada em diferentes países, incluindo o Brasil.
O que mais chama atenção é que não estamos falando de uma doença rara nem de um diagnóstico complexo. Pelo contrário. A hidradenite supurativa pode ser identificada por critérios clínicos relativamente simples, sem necessidade de exames sofisticados para confirmação. Ainda assim, estudos mostram que o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico correto pode variar entre sete e 15 anos.
Esse atraso ocorre por diversos motivos. Muitas vezes, o paciente procura atendimento durante uma fase aguda da doença e recebe tratamento para um suposto quadro infeccioso. Em outros casos, as lesões são interpretadas como furúnculos recorrentes, foliculites ou problemas localizados da região acometida. Como consequência, o paciente passa anos tratando episódios isolados, sem que a doença de base seja reconhecida.
A principal característica da Hidradenite Supurativa é justamente a recorrência. Lesões que aparecem repetidamente nos mesmos locais, especialmente em regiões de dobra do corpo, devem servir de alerta tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde.
Nas últimas décadas, também houve uma mudança importante na forma como compreendemos a doença. Durante muito tempo, a hidradenite supurativa foi encarada como uma condição relacionada principalmente a infecções. Hoje sabemos que se trata de uma doença inflamatória complexa, mediada por alterações do sistema imunológico e associada a diferentes vias inflamatórias.
Essa evolução do conhecimento científico permitiu avanços significativos no tratamento. Atualmente, o Brasil já dispõe de terapias biológicas capazes de atuar diretamente nos mecanismos inflamatórios envolvidos na doença. Além disso, novas moléculas continuam sendo estudadas em pesquisas clínicas internacionais, ampliando as perspectivas para pacientes que convivem com formas moderadas e graves da condição.
Mas é importante destacar que a hidradenite supurativa não se limita às lesões de pele. Frequentemente ela está associada à obesidade, tabagismo, síndrome metabólica, diabetes, alterações hormonais e transtornos relacionados à saúde mental. Por isso, o tratamento ideal exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades médicas e profissionais de saúde.
Recentemente, durante o 4º Imuno & Derma e o 5º SOLAPSO, realizados no Rio de Janeiro, especialistas de diferentes países discutiram justamente os avanços terapêuticos e os desafios que ainda enfrentamos no cuidado desses pacientes. Entre os temas debatidos estiveram novas terapias biológicas, estudos de longo prazo sobre segurança e eficácia dos tratamentos e perspectivas futuras para o controle mais duradouro da doença.
Os avanços são animadores. No entanto, nenhum tratamento será capaz de atingir seu potencial máximo se continuarmos falhando no diagnóstico precoce.
Precisamos ampliar o conhecimento sobre a Hidradenite Supurativa não apenas entre dermatologistas, mas também entre médicos de outras especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais que possam ter contato com esses pacientes. Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores serão as chances de evitar cicatrizes permanentes, complicações e impactos significativos na qualidade de vida.
O maior desafio da hidradenite supurativa atualmente talvez não seja a falta de tratamento. É garantir que o paciente chegue ao diagnóstico antes que a doença deixe marcas irreversíveis.
*Gleison Duarte é dermatologista da Clínica Ibis (CRM - 18130 / RQE - 11203)
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
A matemática da vida e o desafio de envelhecer com saúde
Por Claudia Velasco
Os números mais recentes do IBGE, consolidados na pesquisa Tábuas de Mortalidade 2024, trazem uma confirmação estatística de um fenômeno que observamos diariamente no ambiente clínico: a vida está se estendendo. A expectativa de vida do brasileiro atingiu a marca histórica de 76,6 anos, um incremento de 2,5 meses em apenas um ano. No entanto, como diretora médica e gestora de saúde, meu olhar se volta para uma pergunta mais profunda e analítica: estamos apenas somando anos à vida ou estamos somando vida aos anos?
A análise comparativa histórica é fascinante e, ao mesmo tempo, um alerta. Em 1940, um brasileiro que alcançava os 60 anos tinha, estatisticamente, mais 13,2 anos de jornada pela frente. Hoje, esse mesmo indivíduo de 60 anos tem uma projeção de mais 22,6 anos de vida. Ganhamos quase uma década de existência adicional após a chamada melhor idade. É um triunfo da medicina, do saneamento e do acesso à informação. Mas esse bônus cronológico não vem de graça. Ele exige um novo contrato de saúde assinado muito antes, aos 30 e 40 anos.
É comum que, no auge da fase produtiva, entre os 30 e 40 anos, o indivíduo negligencie os sinais do corpo em nome da carreira e das obrigações familiares. No entanto, é precisamente nesta janela de tempo que o "boleto biológico" da longevidade começa a ser emitido. Os dados mostram que a população masculina, embora tenha tido um ganho de expectativa de vida (passando de 73,1 para 73,3 anos), ainda vive significativamente menos que as mulheres, que já beiram os 80 anos (79,9).
Essa diferença de quase sete anos entre os gêneros é um indicador analítico de que o comportamento preventivo, mais frequente no público feminino, é o divisor de águas entre a sobrevivência e a vitalidade.
Sob o ponto de vista técnico, a longevidade ativa depende do manejo precoce das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). O diagnóstico de uma hipertensão ou de um pré-diabetes aos 35 anos não é uma sentença, mas uma oportunidade estratégica de ajuste. Se ignorados, esses fatores serão os responsáveis por transformar os 22 anos extras de vida conquistados desde 1940 em anos de dependência e limitação física.
O aumento da expectativa de vida é um dado para ser comemorado, mas a longevidade ativa é uma construção diária. O futuro promissor que os dados do IBGE desenham só se concretiza se as escolhas de hoje forem tão robustas quanto as estatísticas. Afinal, viver mais é um fato; viver bem é uma escolha técnica e consciente.
*Claudia Velasco é Diretora Médica da Clínica SiM
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Chikungunya não termina quando a febre passa
Por Viviane Machicado
O aumento de 92% nos casos de chikungunya na Bahia em 2026, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), acende um alerta importante sobre os impactos da doença para além da fase aguda da infecção. Entre janeiro e meados de junho deste ano, foram registrados 3.191 casos prováveis no estado, com notificações em 141 municípios.
Quando pensamos em chikungunya, geralmente associamos a doença aos dias de febre, mal-estar e dores intensas que acompanham a fase aguda da infecção. No entanto, essa visão é incompleta e pode fazer com que muitas pessoas deixem de receber o acompanhamento adequado no momento certo.
Para uma parcela significativa dos pacientes, a chikungunya não termina quando a infecção acaba. Ao contrário do que muitos imaginam, as dores articulares provocadas pelo vírus podem persistir por meses e, em alguns casos, por anos após o desaparecimento dos sintomas iniciais.
Não se trata apenas de um desconforto residual. Estamos falando de um quadro que pode comprometer a mobilidade, a capacidade de trabalhar, a prática de atividades físicas e até tarefas simples do dia a dia. A experiência clínica e os estudos de acompanhamento mostram que entre 30% e 60% dos pacientes podem apresentar sintomas articulares persistentes após a fase aguda da doença.
Em alguns casos, essas manifestações assumem características semelhantes às observadas em doenças reumatológicas inflamatórias, exigindo avaliação especializada e tratamento específico. E é aí que está um dos principais desafios relacionados à chikungunya. Muitas pessoas acreditam que sentir dor por semanas ou meses faz parte do processo natural de recuperação. Como consequência, convivem com sintomas incapacitantes sem buscar ajuda médica ou chegam tardiamente ao especialista.
É importante compreender que a persistência da dor não deve ser encarada como algo normal. Quando os sintomas não apresentam melhora progressiva, quando existe inchaço nas articulações, rigidez pela manhã ou dificuldade para realizar atividades habituais, é fundamental investigar se existe um processo inflamatório em curso.
A atenção deve ser ainda maior entre pacientes que apresentaram quadros mais intensos da doença, com acometimento de múltiplas articulações e presença de inchaço durante a fase aguda. Mulheres, pessoas acima dos 40 anos e indivíduos com doenças reumatológicas prévias também parecem apresentar maior risco de desenvolver complicações articulares prolongadas.
Outro aspecto que merece destaque é a necessidade de diferenciar a chikungunya de outras arboviroses, como dengue e zika. Embora compartilhem diversos sintomas, a chikungunya costuma se destacar pela intensidade da dor articular e pelo potencial de evolução para um quadro inflamatório persistente. Essa característica faz com que a doença tenha impacto muito além do período da infecção viral.
Felizmente, existem formas de tratamento capazes de controlar a inflamação, reduzir a dor e preservar a funcionalidade das articulações. O acompanhamento especializado permite identificar quais pacientes necessitam apenas de medidas de suporte e quais demandam terapias mais específicas para evitar a cronificação dos sintomas.
Em um cenário de crescimento dos casos da doença, precisamos olhar para a chikungunya além das estatísticas epidemiológicas. A febre passa, o vírus desaparece, mas, para muitos pacientes, a doença pode continuar presente nas articulações. E quanto mais cedo essa realidade for reconhecida, maiores serão as chances de preservar qualidade de vida, autonomia e bem-estar. Por isso, o acompanhamento com um reumatologista é fundamental para identificar precocemente processos inflamatórios persistentes, indicar o tratamento mais adequado e evitar que as sequelas comprometam a rotina e a funcionalidade do paciente a longo prazo.
*Viviane Machicado é reumatologista da Clínica IBIS
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Saúde nas eleições, por que promessa não basta?
Por Tacyra Valois
A saúde é um dos setores mais relevantes da vida brasileira, mas continua ocupando espaço menor do que deveria nas decisões centrais. O problema não é falta de diagnóstico. O Brasil produz planos, metas e propostas. O que falta é capacidade de transformar isso em decisão consistente, coordenação institucional e política de Estado.
Isso ajuda a explicar por que um setor que responde por mais de 9,5% do PIB e emprega mais de 5 milhões de pessoas segue tratado de forma fragmentada. A saúde aparece no discurso, mobiliza eleições e pressiona governos. Mas ainda não se firmou como critério efetivo de qualidade da decisão política. Continua submetida ao calendário eleitoral, à pressão imediata e à baixa continuidade institucional.
A pandemia de Covid-19 expôs esse limite. Ficou evidente que a resposta em saúde não depende apenas de hospital, leito ou insumos. Depende da capacidade do poder público de decidir com rapidez, coordenar setores, compartilhar informação e agir com base em evidências. Onde isso funcionou melhor, a resposta foi mais consistente. Onde não funcionou, o custo foi maior.
Ainda assim, essa lição não foi incorporada. O debate sobre saúde no Brasil continua fragmentado. Discute-se o financiamento do SUS, a pressão sobre a saúde suplementar, a regulação e o avanço da judicialização como se fossem problemas isolados. Não são. Revelam um sistema que decide mal, coordena pouco e corrige falhas de forma tardia e mais cara.
Na mesma direção, as emendas parlamentares podem expressar demandas legítimas dos territórios, mas precisam estar mais conectadas ao planejamento público. Quando os recursos chegam sem articulação com prioridades sanitárias, metas regionais e avaliação de resultados, o orçamento se dispersa e perde capacidade de produzir mudanças duradouras. Não queremos aqui negar o papel político das emendas, mas garantir que elas fortaleçam uma estratégia de saúde contínua, coordenada e orientada por necessidades reais da população.
Essa fragmentação compromete a racionalidade do sistema. Cada ator busca resolver sua parte e cada nível de governo administra seu próprio limite. Mas saúde não funciona por pedaços. Ela depende de coordenação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, articulação federativa e capacidade para conectar financiamento, regulação, serviços e resultados.
É justamente nesse ponto que a dimensão municipal continua subestimada. A vida acontece nas cidades. A saúde se produz nos territórios. A população sente a política pública no posto de saúde, no deslocamento, na qualidade do saneamento, na segurança alimentar e na capacidade do serviço local de responder com continuidade. Saúde, na prática, também é mobilidade, habitação, ambiente urbano, educação e assistência social.
Municípios que articulam melhor saúde, assistência, educação, urbanismo e mobilidade tendem a produzir respostas mais consistentes. Não necessariamente porque tenham mais recursos, mas porque conseguem decidir melhor, integrar melhor e acompanhar melhor. Mas nenhuma cidade sustenta isso sozinha. Essa capacidade depende de financiamento estável, coordenação federativa, regras previsíveis e instrumentos de gestão que sobrevivam à troca de governos.
O Brasil entrou mais uma vez em ciclo político. Esse deveria ser o momento de exigir menos retórica e mais método. Plano de governo que não informa prioridade, prazo, responsabilidade, critério de implementação e lógica de coordenação não é compromisso real de governo. É apenas intenção.
Na saúde, isso deveria estar ainda mais claro. Seus efeitos aparecem na vida cotidiana, na confiança institucional e na capacidade do Estado de entregar respostas concretas à população. O país não precisa de mais promessas genéricas na área. Precisa de decisão pública à altura da complexidade do setor.
A saúde já está no centro das preocupações da sociedade. Falta ocupar o mesmo lugar na qualidade da decisão pública.
*Tacyra Valois é executiva em saúde, vice-presidente da ABRIG, pesquisadora em gestão e governança e doutoranda em administração pública pela Université de Bordeaux.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Infertilidade: quando o sonho de engravidar impacta também a vida emocional e sexual do casal
Por Wendy Delmondes
Quando falamos sobre infertilidade, é comum que a atenção esteja voltada para exames, diagnósticos e tratamentos. No entanto, existe uma dimensão dessa condição que ainda recebe pouca visibilidade: os impactos emocionais e sexuais vivenciados pelos casais ao longo da jornada em busca da gravidez.
Em junho, mês dedicado à conscientização sobre a infertilidade, somos convidados a ampliar esse olhar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,5% da população adulta mundial enfrenta dificuldades para engravidar, o que equivale a uma em cada seis pessoas. Trata-se, portanto, de uma condição bastante frequente, mas que ainda é cercada por desinformação, estigmas e silêncios.
Historicamente, a fertilidade foi associada principalmente à mulher. Ainda hoje, é comum que a investigação clínica se inicie por ela, enquanto o parceiro demora mais tempo para realizar avaliações básicas. No entanto, sabemos que essa visão não corresponde à realidade. Os fatores masculinos estão presentes em aproximadamente metade dos casos de infertilidade, seja de forma isolada ou combinados com fatores femininos.
Por isso, é fundamental compreender que a infertilidade é uma condição do casal e que seu diagnóstico deve ser conduzido de forma conjunta. Mais do que uma questão biológica, ela afeta relacionamentos, expectativas e projetos de vida.
Ao longo dos anos acompanhando pacientes na área de reprodução humana, percebo que uma das consequências mais marcantes da infertilidade é a transformação da vida íntima. O que antes acontecia de forma espontânea passa a ser organizado em função do calendário, dos exames e do período fértil. A sexualidade, que deveria ser um espaço de prazer e conexão, muitas vezes se torna uma atividade associada à obrigação e à cobrança.
Esse processo pode gerar um desgaste significativo. A ansiedade diante da espera, o medo de novas frustrações e a pressão por resultados acabam interferindo diretamente na autoestima e na qualidade das relações. Não raro, casais relatam perda do desejo sexual, diminuição da intimidade e dificuldades de comunicação.
Homens e mulheres costumam vivenciar esse cenário de maneiras diferentes. Entre as mulheres, doenças frequentemente associadas à infertilidade, como a síndrome dos ovários policísticos e a endometriose, podem provocar sintomas físicos, desconfortos e alterações que impactam também a sexualidade e o bem-estar emocional.
Já entre os homens, o diagnóstico de um fator masculino frequentemente desperta sentimentos de culpa, insegurança e medo. Ainda existe uma associação equivocada entre fertilidade e masculinidade, o que pode fazer com que muitos homens enfrentem sofrimento emocional silencioso ao receberem esse tipo de diagnóstico.
Além disso, fatores relacionados ao estilo de vida têm papel importante na saúde reprodutiva masculina. Obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, uso de anabolizantes e algumas doenças crônicas podem comprometer a fertilidade, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento especializado.
Apesar dos desafios, é importante destacar que a infertilidade não precisa ser enfrentada apenas como uma experiência de sofrimento. Quando existe diálogo aberto, acolhimento e apoio mútuo, muitos casais conseguem fortalecer seus vínculos durante essa trajetória. Compartilhar medos, expectativas e frustrações permite construir uma relação mais sólida e uma parceria mais consciente diante das dificuldades.
A infertilidade vai muito além da capacidade de engravidar. Ela envolve sonhos, emoções, identidade, autoestima e relações afetivas. Por isso, o cuidado com esses pacientes deve ser integral, contemplando não apenas os aspectos médicos, mas também a saúde emocional e a qualidade de vida.
Falar sobre infertilidade é, acima de tudo, falar sobre pessoas. E quanto mais ampliarmos esse debate, mais preparados estaremos para oferecer informação, acolhimento e suporte a quem vive essa realidade.
*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Precisamos construir uma vida para além da carreira profissional
Por Carlane Machado
Muito se fala sobre burnout, sobrecarga profissional e adoecimento mental relacionado ao trabalho. Os números crescentes de afastamentos por questões emocionais têm despertado debates importantes sobre a responsabilidade das empresas na promoção da saúde mental dos trabalhadores. Mas existe uma reflexão que, talvez, ainda esteja recebendo pouca atenção: será que estamos construindo uma vida para além do trabalho?
A discussão sobre saúde mental costuma ganhar força quando o sofrimento já está instalado. Quando surgem sintomas como ansiedade, exaustão, insônia, irritabilidade ou falta de motivação. No entanto, a prevenção começa muito antes disso. Ela está presente na forma como distribuímos nosso tempo, nossas prioridades e nossas fontes de realização.
Na prática clínica, tenho observado um fenômeno cada vez mais frequente. Muitas pessoas passaram a concentrar grande parte de suas expectativas, reconhecimento e senso de valor pessoal na carreira. O trabalho deixou de ser apenas uma atividade profissional e passou a ocupar um lugar central na identidade de muitos indivíduos.
Não há problema em buscar crescimento profissional, estabilidade financeira ou reconhecimento. O trabalho é uma parte importante da vida e pode, inclusive, ser uma fonte legítima de satisfação. A questão é quando ele se torna a única fonte.
Quando toda a realização se concentra no ambiente profissional, qualquer frustração ganha proporções maiores. Uma crítica, um erro, uma meta não alcançada ou a falta de reconhecimento podem ser interpretados não apenas como desafios do trabalho, mas como uma ameaça ao próprio valor pessoal.
É nesse contexto que muitas pessoas começam, sem perceber, a abrir mão de outras áreas fundamentais da vida. O lazer é adiado. Os encontros com amigos tornam-se raros. O tempo em família diminui. Os hobbies desaparecem. A atividade física deixa de ser prioridade. O descanso passa a ser visto como perda de tempo.
Aos poucos, a rotina se resume ao trabalho.
E é justamente aí que mora um dos grandes riscos. Quando deixamos de cultivar outras fontes de prazer, pertencimento e significado, ficamos emocionalmente mais vulneráveis. Afinal, toda a nossa satisfação passa a depender de um único lugar: o trabalho.
Os sinais desse desequilíbrio costumam aparecer antes mesmo de um adoecimento mais grave. Dificuldade para desligar a mente, sensação constante de cansaço, culpa ao descansar, ansiedade, tensão muscular e a impressão de que nunca se faz o suficiente são alguns dos alertas mais comuns.
Ao mesmo tempo, é importante destacar que essa reflexão não retira a responsabilidade das empresas. As organizações têm papel fundamental na construção de ambientes saudáveis, na prevenção do adoecimento emocional e na promoção de relações de trabalho mais equilibradas.
No entanto, também existe uma responsabilidade individual na construção de limites e no cuidado com a própria vida. Nenhuma carreira, por mais bem-sucedida que seja, consegue suprir sozinha todas as necessidades emocionais de uma pessoa.
A saúde mental também se constrói em experiências simples e cotidianas. Em uma caminhada ao ar livre. Em uma conversa com alguém querido. Em um hobby. Em um momento de lazer. Em um almoço em família. Em uma pausa sem culpa.
Talvez a grande pergunta que precisamos fazer não seja apenas por que estamos adoecendo no trabalho. Talvez seja também: o que estamos deixando de viver fora dele?
Porque o nosso valor não está apenas naquilo que produzimos. E uma vida saudável é aquela que encontra espaço para o trabalho, mas também para tudo aquilo que nos lembra que somos muito mais do que nossa profissão.
*Carlane Machado é psicóloga da Hapvida
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Com a chegada do Dia dos Namorados, somos cercados por vitrines temáticas, campanhas publicitárias, jantares especiais e declarações românticas que ocupam espaço nas ruas, nas telas e no imaginário coletivo. Para muitos casais, a data representa um momento de celebração. Mas para quem está solteiro, esse período pode despertar sentimentos como ansiedade, tristeza, comparação e até uma sensação de inadequação.
Ao longo da minha atuação como psicóloga, percebo que o impacto emocional dessa data vai muito além da condição de estar ou não em um relacionamento. O que costuma gerar sofrimento é o significado que a sociedade atribui ao amor romântico e à vida a dois. Existe uma narrativa bastante difundida de que estar acompanhado é sinônimo de realização afetiva, felicidade e sucesso pessoal. Quando alguém não se percebe dentro desse contexto, pode surgir a impressão de que está ficando para trás ou de que há algo faltando em sua vida.
Esse sentimento tende a se intensificar em tempos de redes sociais, onde somos constantemente expostos a recortes cuidadosamente selecionados da vida dos outros. Fotografias, homenagens e demonstrações públicas de afeto podem reforçar comparações que nem sempre são justas ou reais. Afinal, raramente enxergamos a complexidade das relações por trás das imagens que consumimos diariamente.
Além disso, datas simbólicas costumam carregar emoções silenciosas. Para alguns, o Dia dos Namorados celebra encontros. Para outros, desperta ausências, saudades, frustrações ou questionamentos. Términos recentes, lutos afetivos, decepções amorosas e inseguranças podem ganhar mais força nesse período. E tudo bem. Nem toda data precisa ser vivida da mesma forma.
É importante compreender que sentir tristeza, solidão ou desconforto diante dessa data não significa fraqueza nem incapacidade de ser feliz. Significa apenas que determinadas emoções encontraram espaço para se manifestar. O problema não está em sentir, mas em acreditar que esses sentimentos definem quem somos ou o valor que temos.
Talvez o convite mais importante deste período seja ampliar a nossa compreensão sobre o amor. O amor não se limita aos relacionamentos românticos. Ele também está presente nas amizades, nos vínculos familiares, no cuidado com os filhos, nos encontros sinceros, nos projetos de vida e, principalmente, na relação que construímos com nós mesmos.
Mais do que corresponder a expectativas sociais, acredito que o essencial é compreender o próprio momento, acolher os sentimentos que surgem e respeitar a própria história. Cada trajetória afetiva possui seu ritmo, seus aprendizados e seus significados.
Em uma época marcada pela hiperexposição e pela comparação constante, olhar para si com mais gentileza e menos exigência pode ser um exercício valioso. Afinal, a felicidade não precisa caber em uma data específica nem seguir um modelo pré-estabelecido para ser legítima.
*Niliane Brito é psicóloga (CRP03/12433)
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
O sonho da maternidade não acaba com um diagnóstico de câncer de mama
Por Juliana Orrico
Receber o diagnóstico de câncer de mama costuma provocar uma avalanche de sentimentos. Entre as preocupações com o tratamento e a recuperação, muitas mulheres, especialmente as mais jovens, também enfrentam um medo profundo e silencioso: o de perder a possibilidade de ser mãe.
Durante muito tempo, o câncer foi visto como um ponto final para diversos projetos de vida, inclusive a maternidade. Felizmente, a medicina evoluiu e hoje sabemos que esse sonho pode continuar sendo possível em muitos casos.
Cada vez mais, o cuidado com a fertilidade faz parte da abordagem inicial do tratamento oncológico. Isso significa que, logo após o diagnóstico, muitas pacientes já podem ser encaminhadas para avaliação especializada com foco na preservação da fertilidade, antes mesmo do início da quimioterapia.
Esse planejamento precoce é fundamental. Alguns tratamentos podem impactar a função ovariana, mas atualmente existem estratégias seguras e eficazes, como o congelamento de óvulos ou embriões, que permitem preservar a possibilidade de uma gestação futura.
Mais do que combater a doença, nosso papel enquanto médicos é olhar para a mulher de forma integral. Estamos falando de pacientes que continuam tendo sonhos, planos, desejos e projetos de vida que merecem ser respeitados e acolhidos durante todo o processo de tratamento.
Os avanços científicos também trouxeram mais segurança em relação à gestação após o câncer de mama. Hoje, já sabemos que, em muitos casos, engravidar após o tratamento pode ser seguro, desde que exista acompanhamento multidisciplinar e uma avaliação individualizada de cada paciente.
É importante reforçar que não existe uma fórmula única. Cada caso precisa ser analisado de maneira cuidadosa, considerando o tipo do tumor, o estágio da doença, a idade da paciente, o tratamento realizado e o momento ideal para uma possível gestação.
Nesse contexto, a atuação integrada entre mastologista, oncologista e especialista em reprodução humana se torna essencial. O objetivo é equilibrar segurança oncológica e qualidade de vida, sem que a mulher precise abrir mão de sonhar.
Receber um diagnóstico de câncer de mama é, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis na vida de qualquer mulher. Mas é importante que elas saibam que esse diagnóstico não precisa significar o fim da maternidade.
Hoje, mais do que tratar tumores, tratamos histórias. E preservar a possibilidade de ser mãe também faz parte desse cuidado.
*Juliana Orrico é mastologia (RQE 12346) e especialista reconstrução mamária.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias