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Quando o amor vira controle? Psicóloga Ingrid Ribeiro fala sobre os sinais de uma relação abusiva no Vida em Equilíbrio

Quando o amor vira controle? Psicóloga Ingrid Ribeiro fala sobre os sinais de uma relação abusiva no Vida em Equilíbrio
Foto: Divulgação
No mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, o podcast Vida em Equilíbrio traz uma conversa sobre os sinais que podem aparecer antes que uma relação chegue à violência.

Sustentabilidade começa em nós: Leana Mattei fala sobre consumo consciente e bem-estar no Vida em Equilíbrio

Sustentabilidade começa em nós: Leana Mattei fala sobre consumo consciente e bem-estar no Vida em Equilíbrio
Foto: Bahia Notícias
Sustentabilidade vai muito além da preservação do meio ambiente. Ela está presente nas escolhas que fazemos todos os dias e tem impacto direto na nossa saúde, na qualidade de vida e no futuro das próximas gerações. Esse é o tema do novo episódio do Vida em Equilíbrio, apresentado por Andrea Cunha, que recebe Leana Mattei, especialista em sustentabilidade, ESG e impacto social.

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Pele preta e saúde mental: quem cuida de quem sempre cuida?

Por Andrea Santana

Pele preta e saúde mental: quem cuida de quem sempre cuida?
Foto: Divulgação

Antes de se olhar no espelho, uma mulher negra já foi olhada muitas vezes. Sobre sua pele, cabelo e traços recaem julgamentos que podem atravessar a maneira como ela se percebe e se sente no mundo.

 

Como mulher negra e farmacêutica que atua no cuidado com a pele, acredito que essa história precisa ser considerada quando recebemos uma paciente. A queixa que ela apresenta merece atenção técnica e uma escuta atenta à sua história.

 

Pesquisas associam experiências de discriminação racial a piores indicadores de saúde mental e autoestima e isso não significa que ser negra seja uma condição de adoecimento, significa reconhecer os efeitos do racismo, somados às desigualdades e às cobranças que atravessam a vida dessas mulheres.

 

Existe ainda uma expectativa de força permanente, onde a mulher que trabalha, sustenta, resolve e acolhe nem sempre encontra espaço para dizer que está cansada.


Quando sua resistência é tratada como inesgotável, suas necessidades podem passar despercebidas.

 

Também precisamos reconhecer limites, procedimentos estéticos não tratam ansiedade, depressão ou consequências do racismo. O cuidado com a aparência pode fazer parte do bem-estar, mas não substitui o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário.

 

Defendo um cuidado que respeite escolhas, valorize a beleza negra e que saiba acolher sem julgar essa mulher que tem desejos, projetos, vaidade e direito ao descanso.


Sua vida não pode ser resumida à capacidade de suportar dificuldades.

 

Cuidar da pele preta também é abrir espaço para que a mulher acostumada a cuidar de todos se permita, enfim, ser cuidada.

 

*Andrea Santana é farmacêutica esteta e especialista em pele preta.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Fisioterapia: quando cuidar também é estar presente

Por Rodrigo Medina

Fisioterapia: quando cuidar também é estar presente
Foto: Divulgação

Há profissões que transformam vidas pelo conhecimento e pela técnica. A Fisioterapia reúne essas duas dimensões, mas acrescenta algo essencial: a presença.

 

Cuidar de alguém é muito mais do que aplicar uma técnica ou conduzir um exercício. É conhecer uma história, compreender limites, respeitar medos, comemorar conquistas e, muitas vezes, permanecer ao lado do paciente nos momentos mais difíceis.

 

A morte de Glória Menezes, ontem (18/08), trouxe essa dimensão humana da Fisioterapia para o centro das atenções. No dia seguinte à sua partida, a fisioterapeuta que a acompanhava ganhou destaque ao compartilhar não apenas aspectos do cuidado profissional, mas também a amizade construída ao longo do tempo.

 

Essa história revela algo que nós, fisioterapeutas, conhecemos bem: o tratamento acontece entre pessoas. A técnica é indispensável, o conhecimento científico é inegociável, mas o vínculo também faz parte do cuidado.

 

Quando existe confiança, o paciente se sente mais seguro para falar sobre suas dores, limitações e expectativas. E o profissional passa a compreender aquele indivíduo para além do diagnóstico.

 

A história de Preta Gil também traduz isso. Durante oito anos, a cantora foi acompanhada por sua fisioterapeuta, em uma trajetória que começou com uma dor no joelho e atravessou diferentes momentos de sua vida, inclusive o tratamento contra o câncer. Ao longo desse período, construíram uma relação marcada por amizade, respeito e confiança.

 

São histórias de pessoas conhecidas, mas que representam milhares de brasileiros. O paciente que volta a caminhar depois de um acidente. Quem recupera movimentos após um AVC. A pessoa que retoma o trabalho, o esporte ou atividades simples do cotidiano. O paciente oncológico que busca preservar sua funcionalidade e qualidade de vida.

 

A Fisioterapia está presente em todas essas histórias.


O bailarino Carlinhos de Jesus, ao falar sobre sua recuperação, resumiu o sentimento de muitos pacientes em uma frase: “Fisioterapia é tudo na vida da gente”. É uma afirmação simples, mas poderosa, porque traduz o impacto que o trabalho do fisioterapeuta pode ter na vida de alguém.

 

Por isso, defender a Fisioterapia é, acima de tudo, defender o direito das pessoas a um cuidado de qualidade.

 

O COFFITO e os CREFITOs têm papel fundamental nessa missão, atuando pela valorização da profissão, pela qualificação dos profissionais, pela segurança da assistência e pela ampliação do acesso à Fisioterapia.

 

No CREFITO-7, entendemos que essa defesa também precisa acontecer no diálogo permanente com gestores públicos e instituições responsáveis pelas políticas de saúde. É preciso mostrar que a Fisioterapia deve estar cada vez mais presente na rede pública, chegando a quem precisa, independentemente de sua condição financeira ou do lugar onde vive.

 

Em um mundo cada vez mais marcado pelas telas e pela distância, a relação presencial entre profissional e paciente continua tendo um valor imenso. O olhar atento, a escuta, o toque, a conversa e a confiança construída ao longo do tratamento são parte do cuidado.

 

A Fisioterapia nos lembra que cuidar também é estar presente.

 

As histórias de Glória Menezes, Preta Gil e Carlinhos de Jesus ajudam a mostrar isso ao grande público. Para nós, representam algo ainda maior: a certeza de que cada atendimento pode ser também um encontro humano.

 

Quando ciência, técnica, ética e humanidade caminham juntas, a Fisioterapia cumpre sua missão: ajudar as pessoas a viver com mais movimento, autonomia, dignidade e qualidade de vida.

 

É por isso que defender a Fisioterapia é defender pessoas.

 

E garantir que ela chegue a todos é defender o direito à saúde.

 

*Rodrigo Medina?é presidente do CREFITO-7

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Parar de fumar após o diagnóstico de câncer pode aumentar a sobrevida

Por Juliane Penalva

Parar de fumar após o diagnóstico de câncer pode aumentar a sobrevida
Foto: Divulgação

Receber um diagnóstico de câncer é um momento que transforma profundamente a vida de qualquer pessoa. A partir daí, as atenções se voltam para o estágio da doença, as possibilidades de tratamento e as perspectivas de recuperação. Em meio a tantas preocupações, uma questão fundamental nem sempre recebe a atenção necessária: a importância de abandonar o cigarro, mesmo depois da confirmação do diagnóstico.

 

Durante muito tempo, a cessação do tabagismo foi abordada principalmente como uma estratégia de prevenção do câncer. Entretanto, evidências científicas cada vez mais consistentes demonstram que parar de fumar também pode modificar favoravelmente a evolução da doença, contribuindo para melhores resultados clínicos e maior sobrevida.

 

Um estudo prospectivo publicado na revista científica JAMA Oncology, em 2024, acompanhou 4.526 pacientes com câncer que fumavam. Entre aqueles que iniciaram um tratamento estruturado para cessação do tabagismo nos primeiros seis meses após o diagnóstico, a sobrevida no percentil 75 foi de 3,9 anos entre os que abandonaram o cigarro, contra 2,1 anos entre os que continuaram fumando. Os resultados apontam uma associação importante entre a interrupção do tabagismo e o aumento da sobrevida, reforçando a necessidade de incorporar esse cuidado ao tratamento oncológico.

 

Em setembro de 2026, a Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), também publicou uma síntese de evidências sobre o tema, destacando a relevância da cessação do tabagismo após o diagnóstico de câncer.

 

É importante compreender que os prejuízos provocados pelo cigarro não desaparecem quando a doença é diagnosticada. Pelo contrário, continuar fumando pode aumentar o risco de complicações cirúrgicas, prejudicar a recuperação pulmonar e contribuir para complicações relacionadas aos tratamentos. Por isso, abandonar o tabagismo deve ser considerado parte integrante do cuidado oncológico, independentemente do estágio da doença.

 

No entanto, sabemos que essa decisão nem sempre é simples. A dependência da nicotina envolve mecanismos físicos, psicológicos e comportamentais que tornam o processo de cessação desafiador. Quando esse desafio surge em um momento de grande vulnerabilidade emocional, como o diagnóstico de câncer, as dificuldades podem ser ainda maiores.

 

Para muitos pacientes, o cigarro está associado à tentativa de aliviar a ansiedade, o medo e o sofrimento. Nesse contexto, uma abordagem baseada na culpa ou no julgamento pode afastar a pessoa da equipe de saúde e dificultar o abandono do tabagismo. É fundamental substituir a cobrança pelo acolhimento, oferecendo orientação, escuta e acompanhamento individualizado.

 

A boa notícia é que a dependência do tabaco tem tratamento. O acompanhamento pode envolver suporte comportamental e medicamentos que auxiliam no controle da dependência, sempre de acordo com as necessidades e condições clínicas de cada paciente. Também é importante compreender que eventuais recaídas podem fazer parte desse processo e não devem ser interpretadas como fracasso, mas como situações que exigem reavaliação e continuidade do cuidado.

 

Um dos principais equívocos que precisamos combater é a ideia de que, depois do diagnóstico de câncer, não adianta mais parar de fumar. Essa percepção pode fazer com que o paciente perca uma oportunidade importante de melhorar sua evolução clínica. Independentemente do tempo de exposição ao tabaco, interromper o consumo continua sendo uma medida relevante para a saúde.

 

O enfrentamento do câncer exige uma abordagem ampla, que considere não apenas o tratamento do tumor, mas também os fatores que podem interferir na recuperação e na qualidade de vida. Nesse cenário, a cessação do tabagismo precisa ocupar um espaço de destaque, com a participação de diferentes profissionais de saúde e o envolvimento da rede de apoio do paciente.

 

Parar de fumar não muda o diagnóstico que já foi feito, mas pode influenciar positivamente o caminho que será percorrido a partir daquele momento. Mais do que uma mudança de hábito, abandonar o cigarro representa uma oportunidade de ampliar os cuidados com a saúde e melhorar as perspectivas de tratamento.

 

Nunca é tarde para parar de fumar. Mesmo diante de um diagnóstico de câncer, essa decisão pode fazer diferença na qualidade de vida, na resposta ao tratamento e na sobrevida. E, acima de tudo, ninguém precisa enfrentar esse desafio sozinho.

 

*Juliane Penalva é Pneumologista do Centro Integrado do Tórax  / CRM-BA 26317

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

O papel do investimento social privado no avanço da ciência e da educação na Bahia

A Bahia reúne universidades, centros de pesquisa e profissionais capazes de produzir conhecimento e desenvolver soluções para alguns dos principais desafios sociais do Brasil. Entretanto, entre uma boa ideia e sua aplicação prática existe um caminho que depende de financiamento, estrutura e continuidade. É justamente nesse percurso que muitas iniciativas encontram dificuldades para avançar.


O investimento em ciência, saúde e educação não pode ser compreendido apenas como uma despesa necessária. Trata-se de uma escolha estratégica para o desenvolvimento social e econômico. Pesquisas científicas contribuem para melhorar diagnósticos e tratamentos, orientar políticas públicas e ampliar o acesso a serviços essenciais. Na educação, projetos bem estruturados podem fortalecer a aprendizagem e criar oportunidades que acompanham as pessoas por toda a vida.


O Brasil possui uma comunidade científica qualificada, mas ainda enfrenta dificuldades para garantir a continuidade de pesquisas e transformar conhecimento em benefícios concretos para a população. Nesse cenário, o investimento social privado tem um papel complementar ao poder público, especialmente no apoio a iniciativas que precisam de recursos para desenvolver, testar e ampliar suas propostas.


Na Fundação Maria Emília, essa compreensão orienta uma trajetória de 28 anos de investimentos em saúde e educação. Desde 2019, foram destinados mais de R$ 45 milhões a essas áreas, sendo R$ 15 milhões somente em 2025. Nos últimos seis anos, 77 projetos receberam apoio da instituição. Esses números representam uma responsabilidade que vai além da destinação de recursos: acompanhar resultados e contribuir para que o conhecimento produzido alcance a sociedade.


Um exemplo é o desenvolvimento de uma pesquisa sobre tuberculose, HIV e outras infecções em populações indígenas urbanas do Amazonas, coordenada pelo médico e pesquisador baiano Bruno Bezerril. O estudo contribui para identificar problemas de saúde e encaminhar pessoas para acompanhamento na rede pública. Seus resultados também abriram possibilidades de diálogo com autoridades locais para ampliar as ações a outras comunidades.


Experiências como essa demonstram que o impacto da pesquisa não se limita às publicações científicas. Ele também pode ser percebido na capacidade de orientar decisões, melhorar serviços e responder às necessidades de populações historicamente pouco atendidas.


É com essa perspectiva que a Fundação Maria Emília lançou, em 2026, a chamada aberta FME Transforma, voltada ao financiamento de projetos em cinco áreas: inovação tecnológica em saúde, saúde pública e meio ambiente, saúde na infância e adolescência, envelhecimento saudável e acesso e qualidade em educação. A iniciativa prevê investimentos de até R$ 1 milhão por projeto, conforme seu porte e suas necessidades.


A abertura de oportunidades de financiamento também amplia a possibilidade de identificar iniciativas desenvolvidas fora dos grandes centros, aproximando instituições, pesquisadores e organizações da sociedade civil que conhecem os desafios de seus territórios.


Mas financiar projetos é apenas parte da responsabilidade. É fundamental avaliar sua viabilidade, acompanhar sua execução e compreender os resultados produzidos. O impacto social exige planejamento, critérios técnicos e compromisso com a utilização dos recursos.


Para a Bahia, fortalecer esse ambiente significa reconhecer o potencial das instituições locais e criar condições para que o conhecimento produzido no estado contribua para enfrentar desafios nacionais. A articulação entre universidades, organizações sociais, poder público e financiadores privados pode favorecer esse processo.


O futuro da ciência e da educação depende das decisões tomadas no presente. Investir nessas áreas é apostar na capacidade das pessoas e das instituições de construir respostas duradouras para problemas que afetam milhões de brasileiros(as). E essa é uma responsabilidade que precisa ser compartilhada.


*Thamile Accioly é diretora executiva da Fundação Maria Emília, instituição privada sem fins lucrativos, sediada em Salvador, que investe recursos próprios em iniciativas de saúde e educação no Brasil.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Câncer de mama: entre a suspeita, o tratamento e a volta à vida cotidiana

Por Sérgio Calmon e Vanessa Dybal

Câncer de mama: entre a suspeita, o tratamento e a volta à vida cotidiana
Foto: Acervo Pessoal

O câncer de mama ocupa um lugar importante entre os desafios de saúde enfrentados pelas mulheres. As estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam que o Brasil deverá registrar 78.610 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Na Bahia, são estimados 4.480 novos casos em 2026. No país, o câncer de mama representa cerca de 30% dos novos casos de câncer entre mulheres, excluídos os tumores de pele não melanoma.

 

Números como esses reforçam a importância do diagnóstico e do tratamento, mas também nos convidam a ampliar a forma como pensamos a doença. A jornada de uma mulher diante do câncer de mama não começa necessariamente no diagnóstico e tampouco termina quando as últimas etapas do tratamento são concluídas. Entre a descoberta de uma alteração, a confirmação da doença, a escolha da terapia e a retomada da vida cotidiana, existe uma trajetória que envolve diferentes necessidades e que precisa ser acompanhada de forma integral.

 

O cuidado começa antes mesmo de existir uma suspeita. Cada mulher apresenta uma combinação própria de fatores que pode influenciar seu risco de desenvolver câncer de mama. Idade, histórico familiar, alterações genéticas e antecedentes pessoais são elementos que devem ser considerados na avaliação individual. Por isso, não existe uma única estratégia de acompanhamento que possa ser aplicada indistintamente a todas as mulheres.

 

Também é fundamental diferenciar o rastreamento da investigação de uma alteração suspeita. O rastreamento é direcionado a mulheres sem sinais ou sintomas e deve seguir as recomendações aplicáveis a cada faixa etária e perfil de risco. Já diante de uma alteração identificada na mama, é necessário realizar uma investigação adequada e oportuna. A presença de um nódulo ou outra alteração, por si só, não significa que exista câncer. Exames de imagem e, quando indicada, a biópsia são ferramentas que permitem esclarecer a natureza da alteração.

 

Quando o diagnóstico de câncer de mama é confirmado, começa uma nova etapa: compreender qual é o câncer daquela paciente. Atualmente, sabemos que o câncer de mama não é uma doença única. Existem diferentes subtipos, características biológicas e comportamentos clínicos, e essas diferenças influenciam diretamente a escolha do tratamento.

 

A avaliação de fatores como receptores hormonais, status do HER2, características do tumor e estágio da doença permite construir uma estratégia terapêutica individualizada. Por isso, duas mulheres com o mesmo diagnóstico geral de câncer de mama podem receber tratamentos bastante diferentes. Cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias-alvo são algumas das possibilidades disponíveis, utilizadas de acordo com as características da doença e as necessidades de cada paciente.

 

Essa individualização representa um dos avanços importantes no tratamento do câncer de mama. O objetivo não é apenas tratar uma doença identificada em uma determinada fase, mas compreender suas características para definir uma abordagem adequada e acompanhar a resposta ao tratamento ao longo do tempo.

 

Mas existe uma etapa da jornada que ainda precisa receber mais atenção: a vida depois do tratamento.

 

Concluir a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia ou outras terapias representa um momento de grande importância, mas não significa necessariamente o retorno imediato à vida que existia antes do diagnóstico. O tratamento pode deixar consequências físicas e emocionais que precisam ser acompanhadas. Fadiga, neuropatia, alterações hormonais, questões relacionadas à saúde óssea e cardiovascular, mudanças na sexualidade e aspectos relacionados ao bem-estar emocional podem fazer parte dessa nova fase.

 

Além disso, existem desafios que não aparecem necessariamente nos exames médicos. Retomar o trabalho, voltar a praticar atividades físicas, reconstruir a relação com o próprio corpo, reorganizar a rotina familiar e recuperar projetos que foram interrompidos durante o tratamento também fazem parte do processo de recuperação.

 

É nesse ponto que o conceito de cuidado integral ganha significado. A paciente não deve ser compreendida apenas a partir do tumor que foi diagnosticado. Existe uma mulher com uma história, uma rotina, relações, planos, expectativas e necessidades que continuam existindo durante e depois do tratamento.

 

O Outubro Rosa de 2026 do Grupo HERA — Cuidado Integral da Mama propõe justamente ampliar essa perspectiva a partir do conceito “O câncer de mama faz parte da minha história, mas não é a minha história inteira”. A frase sintetiza uma compreensão importante: o câncer pode representar um capítulo significativo na vida de uma mulher, mas não precisa definir toda a sua trajetória.

 

Falar sobre câncer de mama, portanto, também significa falar sobre prevenção, avaliação de risco, diagnóstico, tratamento, acompanhamento e qualidade de vida. Significa reconhecer que cada etapa exige atenção específica e que o cuidado não deve se encerrar simplesmente porque uma determinada terapia chegou ao fim.

 

A medicina avançou de maneira significativa no diagnóstico e no tratamento do câncer de mama, mas o cuidado precisa acompanhar esses avanços e olhar para além da doença. A mulher que termina seu tratamento continua precisando de acompanhamento, informação e suporte para reconstruir sua rotina e seguir adiante.

 

O câncer de mama pode fazer parte da história de uma mulher. Mas essa história é muito maior do que o câncer.

 

*Sérgio Calmon é Mastologista - CRM-BA: 18863.

*Vanessa Dybal é Oncologista e responsável técnica da Clínica AMO - CRM-BA: 15978.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Dermatite atópica: quando a doença deixa de ser apenas um problema de pele

Por Daniele Pereira

Dermatite atópica: quando a doença deixa de ser apenas um problema de pele
Foto: Divulgação

Existe um momento em que determinados sinais deixam de chamar a atenção justamente porque passam a fazer parte da rotina. Isso acontece com frequência entre pessoas que convivem com dermatite atópica. O ressecamento, as lesões e a coceira acabam incorporados ao cotidiano como se fossem inevitáveis. Mas não deveriam ser.

 

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica que envolve tanto a barreira de proteção da pele quanto o sistema imunológico. Por isso, tratá-la simplesmente como uma “alergia de pele” é uma simplificação que pode atrasar o diagnóstico e levar o paciente a cuidar apenas das crises, sem um acompanhamento adequado da doença.

 

Entre as manifestações mais comuns estão ressecamento, vermelhidão, descamação e coceira. Quando esses sintomas persistem, voltam com frequência ou começam a interferir no dia a dia, o que parece uma irritação pontual pode fazer parte de um quadro que merece avaliação dermatológica.

 

A coceira é uma das manifestações mais marcantes da dermatite atópica. A inflamação da pele estimula as terminações nervosas responsáveis por essa sensação. Ao se coçar, o paciente agride ainda mais a barreira cutânea, o que pode aumentar a inflamação e gerar mais coceira. Forma-se, assim, um ciclo difícil de interromper.

 

E esse impacto não fica restrito à pele. A coceira pode comprometer o sono, a concentração, os estudos e o trabalho. Lesões visíveis e noites mal dormidas também podem afetar a autoestima, o humor e a convivência social. Por isso, a qualidade de vida também deve ser considerada quando avaliamos o controle da doença.

 

Outro ponto que observo com frequência é a forma como os cuidados são conduzidos. Muitos pacientes intensificam o tratamento durante uma crise e o abandonam assim que percebem melhora. Uso inadequado das medicações, hidratação insuficiente e demora para rever a estratégia quando os sintomas persistem também podem dificultar o controle.

 

Não existe, porém, uma lista universal de fatores capazes de desencadear uma crise. Calor, suor, clima seco, estresse, determinados tecidos, produtos irritantes e banhos muito quentes podem piorar os sintomas, mas os gatilhos variam de pessoa para pessoa. Identificá-los individualmente costuma ser mais útil do que estabelecer proibições generalizadas.


A alimentação é um bom exemplo. Ainda existe a ideia de que quem tem dermatite atópica precisa retirar diversos alimentos da dieta. Na maioria dos casos, restrições indiscriminadas não são necessárias. A exclusão de alimentos deve ser considerada quando há uma suspeita consistente de alergia alimentar e após avaliação adequada.

 

Também é importante desfazer a associação entre dermatite atópica e falta de higiene. A doença não é causada por falta de cuidados e não é contagiosa. Pelo contrário: banhos muito quentes e o uso excessivo de sabonetes podem ressecar ainda mais a pele e contribuir para a piora dos sintomas.

 

A dermatite atópica é uma doença crônica, mas sua evolução varia muito. Algumas pessoas apresentam grande melhora ao longo da vida, enquanto outras alternam períodos de controle e crises. O objetivo do tratamento é alcançar e manter o melhor controle possível, com ausência ou redução importante dos sintomas por períodos prolongados.


Nos últimos anos, as possibilidades de tratamento se ampliaram. Além dos cuidados com a pele e das terapias locais, hoje existem medicamentos que atuam de forma mais específica nos mecanismos responsáveis pela inflamação. Em quadros moderados ou graves, ou quando os tratamentos locais não são suficientes, pode ser necessário recorrer a terapias sistêmicas.

 

A gravidade da dermatite atópica também não é determinada apenas pela quantidade ou extensão das lesões. Coceira intensa, perda de sono, crises frequentes, infecções e impacto significativo na rotina são fatores importantes. Quando o tratamento deixa de proporcionar um controle adequado, é necessário reavaliar a estratégia com o dermatologista.


A dermatite atópica também pode estar associada a outras doenças atópicas, como asma, rinite e alergias alimentares. Conhecer o histórico pessoal e familiar ajuda a compreender melhor cada caso e contribui para uma avaliação mais completa e individualizada.

 

No consultório, um dos alertas que mais reforço é simples: não devemos transformar o sofrimento em normalidade. É possível se acostumar às manifestações e, justamente por isso, deixar de perceber o quanto elas interferem na vida cotidiana.

 

A dermatite atópica pode exigir acompanhamento ao longo do tempo, mas conviver continuamente com coceira, lesões e noites mal dormidas não deve ser encarado como algo inevitável. Reconhecer os sinais, compreender os fatores que interferem no quadro e buscar acompanhamento adequado são passos importantes para sair de uma lógica de apenas tratar crises e avançar para um cuidado contínuo, individualizado e voltado para o controle da doença e para a qualidade de vida.

 

*Daniele Pereira é dermatologista da Clínica IBIS, integrante do Grupo CITA
 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Porque o diagnóstico precoce do retinoblastoma é decisivo

Por Fátima Neri

Porque o diagnóstico precoce do retinoblastoma é decisivo
Foto: Divulgação

A perda da visão é uma questão bastante delicada na vida de qualquer indivíduo e envolve uma série de adaptações e acompanhamento médico especializado frequente. Mas pode ser ainda mais impactante para o desenvolvimento infantil. Entre as diversas condições que acompanhamos, quero destacar o retinoblastoma. Trata-se de um tumor ocular mais frequente na infância e, embora seja uma doença rara, correspondendo a 2% dos cânceres infantis, sua evolução pode ser rápida, se não for identificada a tempo.

 

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria registra cerca de 400 novos casos anualmente, sobretudo em crianças de até 5 anos. Quando o diagnóstico é feito precocemente, as chances de cura chegam a 90%. No entanto, metade dos casos ainda chega aos consultórios de forma tardia, um índice preocupante que reduz drasticamente as chances de salvar o globo ocular e preservar a visão da criança.

 

O principal sinal de alerta é a leucocoria — a presença de um reflexo esbranquiçado na pupila, frequentemente notado em fotografias tiradas com flash, em vez do brilho avermelhado habitual. Outros indícios incluem o surgimento recente de estrabismo, tremores involuntários, olhos vermelhos persistentes, dor ou qualquer alteração na aparência das pupilas. Esses sintomas nem sempre significam um tumor, mas exigem, sem exceção, uma avaliação oftalmológica imediata.

 

Na prática médica, o diagnóstico é realizado por meio de exames especializados, como o mapeamento minucioso da retina com dilatação da pupila e ultrassonografia ocular. A medicina evoluiu consideravelmente e hoje dispomos de opções terapêuticas que vão desde tratamentos locais a laser e quimioterapia até procedimentos cirúrgicos.


A maior complexidade para o diagnóstico precoce está no fato de que crianças pequenas raramente conseguem perceber ou comunicar que estão enxergando menos, sobretudo quando o tumor afeta apenas um dos olhos. Elas continuam brincando, correndo e realizando suas tarefas normais, enquanto a doença avança em silêncio. Por isso, a atenção constante de pais, familiares, educadores e pediatras torna-se a primeira e mais importante linha de defesa.

 

O objetivo prioritário é sempre salvar a vida da criança e, em seguida, buscar a preservação do olho e do máximo de capacidade visual possível. O diagnóstico precoce pode salvar a vida e essa é uma responsabilidade que começa em casa, com um olhar atento e uma foto que pode revelar mais do que um sorriso.

 

*Fátima Neri é médica oftalmologista e coordenadora de saúde do Instituto de Cegos da Bahia

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

O cuidado precisa continuar

Por Mirella Martins Lippi

O cuidado precisa continuar
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Como psicóloga, considero fundamental reforçar que dar o passo inicial e buscar ajuda é uma atitude de enorme coragem, mas é apenas o começo de uma jornada. O cuidado com a saúde mental é um processo contínuo e não deve ser interrompido no momento em que os sintomas mais agudos diminuem ou quando a pessoa aparenta, externamente, estar melhor.


A verdadeira transformação acontece na constância. Na psicoterapia, construímos um espaço seguro para compreender as raízes profundas do sofrimento, identificar os gatilhos que aumentam a vulnerabilidade e desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com as emoções e as adversidades do cotidiano. A continuidade do acompanhamento não apenas fortalece a autonomia e amplia os recursos emocionais do indivíduo, mas também atua diretamente na consolidação de vínculos e na prevenção de novas crises.


Nesse cenário, a rede de apoio exerce um papel determinante. Familiares e pessoas próximas nem sempre precisam ter respostas prontas, mas devem oferecer uma escuta empática. Acolher sem julgamentos, evitar frases simplistas que invalidam a dor alheia, respeitar o tempo individual de quem está sofrendo e incentivar a permanência no tratamento são atitudes concretas que fazem toda a diferença no processo de restauração do bem-estar.


O Setembro Amarelo cumpre uma função nobre ao ampliar a conscientização e abrir espaço para o diálogo sobre a prevenção do suicídio. Contudo, a saúde mental não se limita a um único mês do calendário. A atenção, o suporte e a prevenção precisam acontecer durante todo o ano, integrando-se à nossa rotina social e familiar. Cuidar da mente é um compromisso diário, e ninguém precisa carregar o peso dos momentos difíceis sozinho.


Como nos ensina Carl Rogers, psicólogo americano reconhecido como um dos principais nomes da psicologia humanista e criador da Terapia Centrada na Pessoa, “o curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar”. Na vivência da depressão e do sofrimento psíquico, essa aceitação jamais significa conformar-se com a dor, mas sim reconhecer a própria vulnerabilidade e permitir-se receber ajuda. A psicoterapia surge exatamente para abrir esse caminho, oferecendo acolhimento técnico, afeto e novas possibilidades de futuro para quem, no momento presente, ainda não consegue enxergá-las.


*Mirella Martins Lippi é psicóloga da Clínica SiM e especialista em Psicanálise, Neurociências e Comportamento, e em TCC.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Radiação UV em níveis extremos reforça a importância da proteção diária da pele
Foto: Divulgação

A Bahia vive dias de intensa incidência de radiação ultravioleta (UV), com registros que chegaram ao Índice Ultravioleta (IUV) 11 em diferentes municípios do estado, classificação considerada extrema. Em Salvador, o índice chegou a 10, nível muito alto. Mais do que o desconforto causado pelo sol forte, esses números chamam atenção para um aspecto que precisa fazer parte da rotina de cuidados com a saúde: os efeitos acumulativos da exposição à radiação UV.

 

A radiação ultravioleta é um dos principais fatores relacionados ao desenvolvimento do câncer de pele. Seus efeitos não são percebidos apenas imediatamente, como acontece nas queimaduras solares. Ao longo dos anos, a exposição repetida pode provocar alterações nas células da pele, contribuindo também para o envelhecimento precoce e para o surgimento de diferentes tipos de câncer cutâneo.

 

Por isso, em uma região como a Bahia, onde a exposição solar faz parte da rotina durante praticamente todo o ano, a fotoproteção não deve ser encarada como um cuidado exclusivo para dias de praia ou períodos de férias.

 

A proteção precisa fazer parte da rotina. Quando os índices de radiação UV estão muito altos ou extremos, a recomendação é combinar diferentes estratégias de proteção. O protetor solar é fundamental, mas não deve ser considerado a única barreira contra a radiação.

 

Um equívoco bastante comum é acreditar que a aplicação do filtro solar permite permanecer por mais tempo sob o sol. Na realidade, o protetor deve ser utilizado como parte de uma estratégia de proteção e não como uma autorização para prolongar a exposição.

 

Sempre que possível, é importante evitar a exposição direta nos horários de maior intensidade da radiação, especialmente entre 10h e 16h, buscar locais com sombra e utilizar barreiras físicas, como chapéus de abas largas, roupas que cubram a pele e óculos com proteção contra os raios UV.

 

O protetor solar deve ser aplicado nas áreas expostas antes de sair de casa e reaplicado ao longo do dia, principalmente após transpiração intensa, banho de mar ou piscina. Também é importante não esquecer regiões que frequentemente ficam desprotegidas, como orelhas, pescoço, colo, mãos e lábios.

 

Crianças e pessoas que passam muitas horas ao ar livre precisam de atenção redobrada, assim como indivíduos com histórico pessoal ou familiar de câncer de pele.

 

Sol forte não é sinônimo de maior radiação UV. Outro ponto que merece atenção é a falsa sensação de segurança provocada por dias nublados ou temperaturas mais amenas. A sensação térmica não determina a intensidade da radiação ultravioleta.

 

Mesmo quando o calor não parece tão intenso, os raios UV podem atingir a pele. Essa radiação pode chegar de forma direta, ser dispersada pela atmosfera ou refletida por superfícies como água, areia e outras áreas claras.

 

Por isso, a proteção deve ser mantida mesmo quando não há aquela sensação característica de "sol muito quente".

 

A pele acumula a história da exposição solar. Nossa pele registra, ao longo dos anos, os efeitos da exposição à radiação ultravioleta. As queimaduras solares são apenas uma das manifestações mais evidentes desse processo. A exposição repetida e acumulada pode contribuir para alterações celulares, fotoenvelhecimento e aumento do risco de câncer de pele.

 

Esse caráter cumulativo reforça a importância de começar a proteção desde cedo e mantê-la ao longo da vida.

 

Além da prevenção, também é fundamental conhecer a própria pele e observar o surgimento de novas lesões ou mudanças em pintas já existentes. Alterações de tamanho, formato ou cor, feridas que não cicatrizam, além de lesões que coçam, descamam ou sangram, devem ser avaliadas por um dermatologista.

 

O diagnóstico precoce faz diferença. O câncer de pele está entre os tipos de câncer mais frequentes e, quando identificado precocemente, apresenta grandes possibilidades de tratamento bem-sucedido. Por isso, não devemos esperar o aparecimento de uma lesão suspeita para começar a cuidar da pele.

 

A prevenção acontece diariamente, por meio de escolhas simples: reduzir a exposição nos horários de maior radiação, buscar sombra, utilizar roupas e acessórios de proteção e aplicar corretamente o protetor solar.

 

Os episódios de radiação UV muito alta ou extrema registrados na Bahia funcionam como um importante lembrete de que a fotoproteção precisa ser incorporada aos hábitos cotidianos. Mais do que uma preocupação relacionada ao verão ou aos dias de praia, proteger a pele é uma medida permanente de cuidado com a saúde.

 

Em uma região de elevada exposição solar como a nossa, cuidar da pele hoje é também uma forma de preservar sua saúde para o futuro.

 

*Gal Leto é Dermatologista – CRM 15533/ RQE 7837

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

O que ninguém vê: a saúde mental de quem convive com a Neuromielite Óptica

Por Karina Domingues

O que ninguém vê: a saúde mental de quem convive com a Neuromielite Óptica
Foto: Divulgação

As marcas da Neuromielite Óptica e Doenças do seu Espectro (NMOSD) nem sempre aparecem nos exames. Além dos desafios neurológicos, a doença impacta identidade, família, trabalho e projetos de vida, reforçando a importância de incluir a saúde mental no cuidado integral.


A NMOSD é uma doença neurológica rara, autoimune e inflamatória que acomete principalmente o nervo óptico e a medula espinhal. Pode provocar perda visual, limitações motoras, dor, fadiga e, em alguns casos, sequelas permanentes. O diagnóstico é feito por meio da avaliação clínica, exames de imagem e testes laboratoriais, mas há aspectos que nenhum exame consegue medir: o medo de novas crises, a insegurança diante da imprevisibilidade e as mudanças impostas aos planos de vida.


A doença afeta predominantemente mulheres entre 30 e 40 anos, muitas delas em plena fase de construção da carreira, da independência financeira e da vida familiar. Homens e crianças também podem ser acometidos, ampliando os impactos para toda a família.


Receber o diagnóstico de uma doença rara e crônica frequentemente desencadeia um processo de adaptação semelhante ao luto. Não se trata apenas de aprender sobre uma condição médica, mas de reorganizar expectativas, redefinir prioridades e construir uma nova rotina diante das limitações e incertezas.


Um dos aspectos mais difíceis da NMOSD é sua imprevisibilidade. Mesmo com tratamento, muitos pacientes convivem com a preocupação constante de uma nova crise, que pode resultar em internações, novas sequelas e mudanças na autonomia. Essa incerteza pode favorecer ansiedade, insegurança e dificuldade para planejar o futuro.


Recentemente, uma pesquisa sobre qualidade de vida realizada com pessoas com NMOSD em diferentes regiões do Brasil mostrou que os domínios mais comprometidos foram justamente as limitações físicas e emocionais, evidenciando que o impacto da doença vai muito além do comprometimento neurológico.


Outro desafio importante são as chamadas sequelas invisíveis. Sintomas como fadiga intensa, dor neuropática, alterações de sensibilidade e exaustão emocional nem sempre são percebidos por quem convive com o paciente. Muitas pessoas conseguem manter suas atividades, mas à custa de um esforço físico e psicológico muito maior do que aparentam.


Após o diagnóstico, também é comum surgir uma cobrança para continuar sendo a mesma pessoa de antes. Muitos pacientes tentam manter o mesmo ritmo de vida, mesmo quando o corpo exige adaptações. Reconhecer limites, porém, não significa desistir, mas encontrar formas mais sustentáveis de preservar autonomia, qualidade de vida e projetos pessoais.


A doença também transforma a dinâmica familiar. Internações, tratamentos e possíveis limitações afetam a organização da casa, do trabalho e do cuidado com filhos e familiares. Em muitos casos, o sofrimento emocional está relacionado ao receio de perder a independência ou de se tornar um peso para aqueles que ama.


Como psicóloga e paciente com Neuromielite Óptica desde 2015, aprendi que o enfrentamento de uma doença crônica não significa voltar a ser quem se era antes, mas construir uma nova forma de viver. Costumo dizer que encontrei um "novo normal": uma vida com adaptações, mas também com sonhos, objetivos e possibilidades.


Cada pessoa percorre esse caminho de maneira diferente. Psicoterapia, apoio familiar, espiritualidade, grupos de pacientes e atividades que proporcionam sentido podem fortalecer o processo de adaptação. O importante é que a doença não se torne a única definição da identidade de quem convive com ela.


Falar sobre saúde mental na NMOSD também significa discutir acesso ao diagnóstico precoce, acompanhamento especializado e tratamentos adequados. O cuidado emocional não pode ser separado das condições concretas que influenciam a vida do paciente.
A Neuromielite Óptica ensina que nem todo sofrimento é visível. Por trás dos exames, existem pessoas reconstruindo suas histórias, preservando sua autonomia e buscando continuar vivendo apesar dos desafios.


A saúde mental precisa fazer parte do cuidado integral. Afinal, uma pessoa com NMOSD é muito mais do que seu diagnóstico. Reconhecer essa dimensão invisível é um passo essencial para oferecer um cuidado mais humano, completo e digno.


*Karina Domingues é psicóloga, pós-graduada em Psicologia Hospitalar e mestre em Neuropsicolinguística. Convive com Neuromielite Óptica desde 2015 e atua na conscientização sobre a doença e no apoio às pessoas com NMOSD como cofundadora e vice-presidente da NMO Brasil.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Entrevistas

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Foto: Acervo pessoal
Segundo ela, “a nutrição antirracista fala muito sobre justiça social, sobre garantia de direitos, equidade racial.