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O exame esquecido: por que ainda diagnosticamos tarde a doença renal crônica?
Por José A. Moura Neto
Há exames que se tornaram parte da cultura médica e da expectativa do paciente. O colesterol é um deles. Basta uma consulta de rotina para que sua ausência na solicitação cause estranhamento. Com a creatinina, isso não acontece.
Entretanto; creatinina alta, normalmente, é pior do que colesterol alto. A invisibilidade é tamanha que, em uma campanha recente, cogitou-se o slogan “Creatinina para Todos”. A ideia foi abandonada – e ajustamos os dizeres para “Exame de Creatinina para Todos” - em razão do alto risco da confusão com o ilustre parônimo. O suplemento creatina, que veio bem depois, tornou-se mais popular do que o exame que pode diagnosticar a doença renal antes do aparecimento dos sintomas.
A doença renal crônica é, talvez, uma das condições mais subdiagnosticadas da prática clínica contemporânea. Não por ser rara ou de difícil identificação - ao contrário. Trata-se de uma condição frequente, silenciosa e progressiva, cujo diagnóstico, na maioria dos casos, depende de dois exames simples: a dosagem de creatinina no sangue e um exame de urina. Ainda assim, milhões de brasileiros convivem com algum grau de comprometimento renal sem saber.
O problema não está na ausência de tecnologia. Está na ausência de sistematização. Não incorporamos, de forma consistente, o rastreamento da doença renal crônica à consulta médica de rotina, inclusive na atenção primária - justamente o espaço onde o diagnóstico deveria acontecer. O resultado é conhecido: pacientes que chegam tardiamente ao sistema, muitas vezes já em estágios avançados, quando as possibilidades de intervenção são mais limitadas e mais custosas — para o indivíduo e para o próprio sistema de saúde.
É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. Falhamos enquanto sistema ao não priorizar o diagnóstico precoce de uma condição cuja identificação é simples e cujo impacto é profundo. Mas há também razões para um olhar construtivo.
Nos últimos anos, a nefrologia brasileira tem buscado enfrentar esse desafio de forma mais estruturada. A Sociedade Brasileira de Nefrologia vem investindo em iniciativas voltadas à ampliação do diagnóstico precoce, com destaque para o projeto Epi-DRC, além de ações contínuas de capacitação de profissionais da atenção primária - um passo importante para transformar conhecimento em prática.
Em 2025, o projeto avaliou 8.374 pessoas em 40 cidades brasileiras. Cerca de 3.370 apresentaram alterações na creatinina e foram encaminhadas para confirmação diagnóstica e tratamento - indivíduos que, até então, desconheciam sua condição. Duas em cada três das pessoas avaliadas sequer sabiam quais seriam os fatores de risco para doença renal crônica. Em 2026, o projeto foi ampliado para 12 mil testes, com acompanhamento dos casos identificados. Trata-se de um esforço relevante e, sob muitos aspectos, inédito no mundo. Mas é preciso reconhecer: iniciativas pontuais, por mais robustas que sejam, não substituem política pública estruturada.
O Brasil dispõe de uma das maiores redes de atenção primária do mundo, com cerca de 40 mil Unidades Básicas de Saúde. É nesse nível de atenção que o diagnóstico precoce deve ser incorporado de forma sistemática, especialmente em grupos de risco como pacientes com hipertensão, diabetes, obesidade e idosos. Transformar essa realidade exige mais do que evidência científica. Exige coordenação, financiamento, protocolos claros e, sobretudo, constância.
Constância das instituições, constância dos profissionais de saúde, constância das políticas públicas. E exige também engajamento. Da comunidade médica, ao incorporar de forma rotineira exames simples que fazem diferença. Do sistema de saúde, ao priorizar o que é custo-efetivo. E da sociedade, ao compreender que prevenção não é acessório - é estratégia.
Enquanto falamos de performance e ganhos rápidos, a creatina ganhou espaço na prateleira. Ganhou popularidade. A creatinina, não. E, no entanto, é ela que, muitas vezes, separa dois caminhos: o da descoberta precoce e o da surpresa tardia. Talvez o desafio não seja apenas técnico. Talvez seja cultural. A doença renal crônica não precisa ser uma descoberta tardia. Os exames estão disponíveis - inclusive no Sistema Único de Saúde. Falta transformar o óbvio em rotina.
Não se trata de tecnologia sofisticada ou de soluções complexas. Às vezes, tudo começa com um exame que ninguém pediu. Ou que ninguém lembrou: a creatinina.
*José A. Moura Neto é Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Neste 29 de maio, quando celebramos o Dia Mundial da Saúde Digestiva, somos convidados a refletir sobre a relação entre alimentação, digestão e qualidade de vida.
Nas últimas décadas, o Brasil vem passando por uma mudança importante nos hábitos alimentares. Alimentos tradicionais da nossa cultura, como aipim, inhame, couve e arroz vermelho, vêm sendo substituídos por produtos ultraprocessados, impulsionados pela publicidade e pela praticidade do consumo.
Essa mudança tem impacto direto na saúde digestiva. A alimentação tradicional brasileira sempre foi rica em fibras, vitaminas e minerais. As fibras presentes em frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais ajudam no equilíbrio da microbiota intestinal, contribuem para o bom funcionamento do intestino e auxiliam na prevenção da prisão de ventre e de processos inflamatórios digestivos.
Por outro lado, uma dieta baseada em produtos ultraprocessados favorece inflamações, alterações intestinais e dificuldades digestivas. O excesso de açúcar, conservantes e aditivos químicos também aumenta os riscos de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial.
Outro aspecto preocupante é a introdução precoce desses alimentos na rotina infantil. É cada vez mais comum crianças consumirem biscoitos recheados, refrigerantes e bebidas artificiais desde cedo. Essa exposição contínua a sabores intensos e artificiais dificulta, posteriormente, a aceitação de alimentos naturais.
Por isso, a mudança precisa começar dentro de casa. O exemplo dos adultos é fundamental na formação dos hábitos alimentares das crianças. Ter frutas da estação disponíveis, substituir refrigerantes por sucos naturais preparados na hora e valorizar alimentos tradicionais são atitudes simples, mas importantes para a saúde.
A naturopatia defende justamente uma alimentação mais natural, baseada em frutas, legumes, verduras, feijões, cereais integrais, ovos e laticínios, preferencialmente frescos e minimamente processados. Além disso, utiliza recursos terapêuticos complementares, como hidroterapia, geoterapia e chás digestivos preparados com plantas conhecidas popularmente, como erva-cidreira, erva-doce, alumã e orégano.
Também é importante compreender que saúde digestiva não depende apenas da alimentação. Emoções, pensamentos e estilo de vida influenciam diretamente o funcionamento do organismo.
A antiga frase “somos aquilo que comemos” continua extremamente atual. Cuidar da alimentação é cuidar da saúde e da qualidade de vida.
*Aureo Augusto é Médico e Naturopata
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Quem cuida da saúde de quem gera e sustenta a vida
Por Beatrice Facundo Garcia Carneiro
Como obstetra, tenho o privilégio de acompanhar o início de uma das jornadas mais profundas da experiência humana: a maternidade. No consultório, durante o pré-natal, o foco é integralmente dividido entre a gestante e o bebê. No entanto, com o nascimento, testemunho uma mudança sutil e quase imediata de comportamento.
A mulher, antes tão atenta aos próprios exames e sintomas, gradualmente se coloca em segundo plano. O olhar, compreensivelmente, volta-se por inteiro para o recém-nascido, dando início a um ciclo de autonegligência que muitas vezes se estende por anos.
O Dia das Mães é um momento de celebração, mas também nos convida a uma reflexão clínica e social sobre o preço invisível desse cuidado constante. A rotina materna é frequentemente marcada pelo acúmulo de funções, onde o gerenciamento do lar, a carreira e a criação dos filhos consomem a totalidade das horas diárias.
Nessa matemática implacável, a primeira atividade cancelada costuma ser a consulta preventiva, a prática de exercícios ou a noite de sono reparadora. O sacrifício pessoal é socialmente romantizado, mas a medicina nos mostra que o cansaço crônico e o estresse prolongado cobram uma fatura alta na saúde física e mental da mulher.
Do ponto de vista médico, a negligência com exames de rotina, a alimentação desequilibrada e o sedentarismo pavimentam o caminho para o surgimento de problemas cardiovasculares, distúrbios hormonais e exaustão extrema. É preciso desmistificar a ideia de que o autocuidado é um ato de egoísmo.
Pelo contrário, a saúde da mãe é o alicerce de toda a estrutura familiar. Uma mulher sobrecarregada e doente terá mais dificuldades para exercer o cuidado que tanto deseja oferecer. Cuidar de si mesma é, em última análise, um ato de responsabilidade com as pessoas que dependem dela.
O maior presente que uma mãe pode receber, e se dar, é o resgate de sua própria individualidade e saúde. Isso começa com pequenas concessões diárias, como delegar tarefas, aceitar redes de apoio e priorizar as consultas médicas anuais. Afinal, a maternidade deve ser vivida com plenitude e vitalidade, não como um processo de anulação pessoal.
Que esta data sirva como um lembrete de que, para sustentar o bem-estar de quem amamos, precisamos primeiro garantir que o nosso próprio coração e corpo estejam fortes e acolhidos.
*Beatrice Facundo Garcia Carneiro é Médica Ginecologista e Obstetra da Clínica SiM
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Infertilidade, excesso de informação e solidão silenciosa: o que não se vê por trás do desejo de ser mãe
Por Wendy Delmondes
Maio costuma ser um mês de celebração. Mas, dentro dos consultórios, ele também revela uma camada menos visível da maternidade: a das mulheres que desejam engravidar, mas encontram no caminho um tempo que não responde, um corpo que não acompanha e uma expectativa que começa a pesar.
A infertilidade, definida clinicamente como a dificuldade de engravidar após 12 meses de tentativas, ou seis meses em mulheres acima de 35 anos, já não pode mais ser tratada como exceção. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 17,5% da população adulta global enfrenta essa condição em algum momento da vida, o que representa aproximadamente uma em cada seis pessoas. No Brasil, estimativas da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida apontam que cerca de 8 milhões de pessoas convivem com dificuldades para engravidar.
Ainda assim, o tema segue cercado por silêncio, atraso no diagnóstico e, muitas vezes, interpretações simplificadas. A fertilidade não é um evento isolado, nem um resultado imediato. Ela é construída a partir de múltiplos fatores biológicos, hormonais, comportamentais e sociais. Reduzir esse processo a uma tentativa que não deu certo significa perder a oportunidade de investigar de forma estratégica.
Na prática clínica, observa-se que muitas pacientes chegam após longos períodos de tentativa sem orientação adequada. Parte disso se deve a uma percepção cultural ainda muito presente: a ideia de que engravidar é um processo natural, automático e, portanto, apenas uma questão de tempo. Não é.
A idade segue como um dos fatores mais determinantes. A fertilidade feminina começa a declinar de forma mais acentuada após os 35 anos, com redução progressiva da quantidade e da qualidade dos óvulos, um processo biologicamente esperado, mas frequentemente negligenciado no planejamento reprodutivo contemporâneo. Paralelamente, condições como endometriose, síndrome dos ovários policísticos, alterações hormonais e baixa reserva ovariana podem atuar de forma silenciosa por anos.
A isso se somam fatores comportamentais cada vez mais presentes, como estresse crônico, privação de sono, alimentação desregulada, consumo de álcool, tabagismo e sedentarismo. Nenhum deles, isoladamente, determina a infertilidade, mas, em conjunto, contribuem para um cenário menos favorável à concepção. Vive-se hoje uma contradição importante: as mulheres têm mais autonomia para decidir quando querem ser mães, o que é um avanço inegável, mas o corpo reprodutivo ainda responde a um tempo biológico que não mudou. Esse desalinhamento precisa ser discutido com mais clareza.
Nesse contexto, cresce também a busca por apoio fora do ambiente médico. As redes sociais se tornaram espaços de troca, acolhimento e identificação entre mulheres que vivem o mesmo processo. Relatos pessoais, jornadas de tratamento e experiências compartilhadas ajudam a reduzir a sensação de isolamento, o que tem valor. No entanto, há um movimento paralelo que merece atenção.
Estudos recentes publicados em periódicos científicos mostram que conteúdos sobre fertilidade nas redes sociais frequentemente apresentam desinformação e baixa participação de profissionais qualificados. Além disso, revisões em saúde digital indicam que a exposição contínua a narrativas idealizadas ou a soluções simplificadas pode aumentar níveis de ansiedade e estresse em pacientes em tentativa de engravidar.
Trata-se de um ambiente ambíguo. Ao mesmo tempo em que acolhe, também pode confundir. Promessas de cura natural, tratamentos sem evidência científica e protocolos replicados sem individualização são mais comuns do que deveriam, o que pode atrasar decisões importantes. Outro ponto sensível é a cultura da comparação. Diferente do que acontece no consultório, onde cada caso é interpretado de forma individualizada, nas redes sociais as histórias são consumidas de forma fragmentada e frequentemente fora de contexto, gerando uma percepção distorcida de tempo, prognóstico e expectativa.
Enquanto isso, o impacto emocional da infertilidade é real e mensurável. Mulheres em tratamento podem apresentar níveis de estresse comparáveis aos de pacientes com doenças crônicas graves. Ansiedade, frustração, sensação de perda de controle e isolamento são recorrentes e muitas vezes invisíveis.
A infertilidade não é apenas uma condição física. Ela atravessa o emocional, os relacionamentos e a forma como a mulher se enxerga. Por isso, o cuidado precisa ser ampliado, não apenas técnico, mas também humano.
Neste Mês das Mães, ampliar a conversa sobre maternidade também significa incluir quem ainda está no caminho. Significa reconhecer que, para muitas mulheres, o desejo de ser mãe não vem acompanhado de respostas rápidas e que isso não deve ser tratado com culpa, urgência ou soluções simplistas. Nem sempre o tempo da vida coincide com o tempo biológico. E é justamente por isso que informação de qualidade, diagnóstico precoce e acompanhamento especializado fazem tanta diferença. Fertilidade não é sobre promessa. É sobre estratégia, ciência e, principalmente, cuidado.
*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
A tecnologia como aliada fundamental da resolutividade na saúde moderna
Por Claudia Velasco
A modernização dos serviços de saúde no Brasil é um reflexo direto de uma sociedade que busca eficiência sem abdicar da segurança clínica. De acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Telemedicina e Saúde Digital, (ABTms), o volume de atendimentos médicos remotos no país cresceu mais de 300% desde 2020. Esse avanço resultou em mais de 7,5 milhões de consultas realizadas apenas em 2024, consolidando o ambiente digital como uma via preferencial e confiável de cuidado. O que antes era uma alternativa emergencial tornou-se um pilar estratégico da medicina contemporânea, garantindo que o cuidado chegue ao paciente de forma ágil.
Esse cenário de inovação tem sustentação jurídica, especialmente após a regulamentação trazida pela Lei 14.510 de 2022. Esta legislação transformou a telessaúde em uma prática permanente no Brasil, oferecendo as garantias necessárias para que profissionais e pacientes explorem o máximo potencial das ferramentas tecnológicas. A transição para o modelo de telemedicina ampliada representa o passo seguinte dessa evolução, permitindo que a distância física seja superada por uma capacidade diagnóstica cada vez mais completa e precisa.
O grande diferencial dessa modalidade reside na capacidade de coletar evidências clínicas detalhadas antes mesmo do início da conversa com o especialista. Por meio de dispositivos conectados ao sistema através da internet das coisas, tecnologia conhecida como internet of things, é possível aferir dados vitais com precisão técnica superior. Esse ambiente permite a realização de exames como pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura e oximetria, além de auscultas cardíaca e pulmonar. A tecnologia possibilita ainda a prática de oroscopia, exame clínico da cavidade oral e orofaringe, otoscopia, exame físico para avaliar as estruturas do ouvido, e a captura de imagens de pele para análise.
O monitoramento clínico ganha profundidade analítica com a medição de glicemia e a realização de bioimpedância, que detalha informações sobre peso, índice de massa corporal, gordura corporal, massa óssea, proteína, massa muscular, gordura visceral, metabolismo basal e água corporal total. O resultado dessa integração tecnológica é uma assistência muito mais assertiva e embasada em dados reais acessados simultaneamente. Estes são sinais de como a modernidade, mais uma vez, tem facilitado a rotina dos pacientes ao reduzir deslocamentos e atenuar o tempo de espera, mantendo o rigor técnico que a medicina exige. Isso legitima um cenário onde a saúde digital avança para um patamar onde a qualidade do atendimento é ditada pela precisão da informação e pela facilidade de acesso ao cuidado especializado.
*Claudia Velasco é Diretora Médica da Clínica SiM
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Lei amplia acesso à reconstrução mamária, mas informação ainda é desafio
Por Larissa Bitencourt e Marinalva Medina
A ampliação do acesso à reconstrução mamária no Brasil representa um avanço importante no cuidado às mulheres com câncer de mama. Ainda assim, a falta de informação continua sendo um dos principais obstáculos para que esse direito seja plenamente exercido.
Ao longo do tratamento, uma decisão fundamental nem sempre é apresentada de forma clara às pacientes: a possibilidade da reconstrução mamária. Embora garantida por lei e reconhecida como parte integrante do tratamento oncológico, essa etapa ainda é frequentemente percebida como opcional ou restrita à estética, o que contribui para que muitas mulheres não tenham acesso a todas as alternativas disponíveis.
Nos últimos anos, a legislação brasileira avançou ao ampliar a oferta da reconstrução mamária pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando não apenas casos oncológicos, mas também outras situações que envolvem a retirada da mama. Essa ampliação reforça o entendimento de que o procedimento deve ser encarado como parte do cuidado integral à saúde da mulher.
Apesar disso, persiste uma percepção limitada sobre o tema. A reconstrução mamária vai além da aparência: ela tem impacto direto na autoestima, na identidade e na recuperação emocional das pacientes. Mais do que uma questão estética, a reconstrução mamária faz parte do tratamento. Ela influencia diretamente na forma como a paciente se reconhece após a cirurgia e contribui para a recuperação emocional ao longo de todo o processo.
Por esse motivo, quando indicada, a reconstrução deve ser discutida desde o momento do diagnóstico. Essa abordagem permite que a paciente participe ativamente das decisões sobre seu tratamento, compreendendo possibilidades e limites de cada opção. A cirurgia pode ser realizada de forma imediata — no mesmo tempo da retirada da mama — ou tardia, até anos após a conclusão do tratamento. A escolha do momento ideal depende de uma avaliação clínica individualizada.
Entre os fatores considerados estão o tipo e o estágio do tumor, as condições gerais de saúde da paciente e o planejamento terapêutico. As técnicas também variam, podendo incluir o uso de próteses de silicone ou a reconstrução com tecidos do próprio corpo, sempre com indicação personalizada.
Uma das dúvidas mais frequentes diz respeito à segurança da reconstrução imediata. Quando bem indicada, essa abordagem é considerada segura do ponto de vista oncológico. Estudos e diretrizes internacionais mostram que a reconstrução imediata não aumenta o risco de recidiva nem compromete a sobrevida. No entanto, essa decisão não é automática: depende da extensão da doença, das condições clínicas da paciente e da experiência da equipe envolvida.
Quando esses critérios são respeitados, a reconstrução imediata pode trazer benefícios importantes, como a redução do número de cirurgias e melhores resultados estéticos, sem prejuízo ao tratamento do câncer. Mais do que a reconstituição física, o procedimento contribui para que a paciente se reconecte com o próprio corpo, retome sua identidade e enfrente o processo com mais segurança e bem-estar.
Diante desse cenário, a principal orientação para mulheres que passam pela retirada da mama é buscar informação qualificada e acompanhamento especializado. A retirada da mama não significa, necessariamente, uma perda definitiva. Em muitos casos, é possível reconstruir na mesma cirurgia e, mesmo quando isso não é indicado naquele momento, ainda existe a possibilidade de reconstrução posteriormente. O mais importante é que a paciente entenda que a reconstrução não é um detalhe estético, mas parte do tratamento, e precisa ser discutida com uma equipe preparada.
Garantir o acesso à informação é fundamental para que esse direito seja efetivamente exercido. O acompanhamento multidisciplinar possibilita que cada paciente compreenda suas opções e participe de forma ativa e consciente de toda a sua jornada de cuidado.
*Larissa Bitencourt (CRM 24.958/BA | RQE 14.465 / 14.464) e Marinalva Medina (CRM 23.234/BA | RQE 15148 - | RQE 15.149) são mastologistas.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Prevenção vai além do check-up: o desafio do diagnóstico precoce no Brasil
Por Rafael Catramby
Mesmo com mais acesso à informação e aos serviços de saúde, a maioria dos brasileiros ainda procura atendimento médico apenas quando surgem sintomas. Dados do IBGE mostram que 70,6% da população não realiza check-ups regularmente, um comportamento que dificulta o diagnóstico precoce de doenças silenciosas e potencialmente graves.
Na prática, o chamado “check-up” faz parte de uma estratégia mais ampla de rastreamento de doenças e, para ser eficaz, precisa ser feito com critério. Nem toda doença pode ser detectada precocemente, e nem todo exame contribui para isso. Para que o rastreamento funcione, é necessário que a condição tenha um tempo de evolução que permita diagnóstico antecipado e que existam métodos acessíveis e eficazes.
Doenças como hipertensão, diabetes e colesterol elevado evoluem, na maioria das vezes, sem sintomas. Ainda assim, aumentam significativamente o risco de infarto e AVC. Estima-se que cerca de metade dos hipertensos e até 40% das pessoas com diabetes não saibam que convivem com a doença.
O mesmo ocorre com alguns tipos de câncer com potencial de rastreamento, como os de mama, próstata, pulmão, colo do útero e intestino, que também podem se desenvolver de forma silenciosa. Nesses casos, o diagnóstico precoce faz toda a diferença, reduzindo a necessidade de tratamentos mais agressivos e aumentando as chances de controle ou cura.
Por isso, prevenção não significa fazer muitos exames, mas sim fazer os exames certos, no momento adequado e de acordo com o perfil de risco de cada paciente.
Entre as avaliações básicas estão a aferição da pressão arterial, exames de glicemia, colesterol e função renal, além de uma boa consulta clínica. Já exames como mamografia, Papanicolau e colonoscopia devem seguir critérios específicos, como idade, histórico familiar e fatores de risco.
A frequência das avaliações também deve ser individualizada. Embora a consulta anual possa servir como referência, ela não deve ser automática nem baseada na repetição indiscriminada de exames. Cada paciente deve ser avaliado de forma única, considerando histórico, hábitos de vida e possíveis mudanças no seu perfil de risco.
Quando o diagnóstico é feito precocemente, as chances de sucesso no tratamento aumentam significativamente. Em muitos casos, especialmente nas doenças cardiometabólicas, é possível controlar ou até reverter o quadro com mudanças no estilo de vida.
Por isso, o cuidado com a saúde deve começar antes do surgimento de qualquer sintoma. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, sono de qualidade, atenção à saúde mental e acompanhamento médico contínuo são pilares fundamentais da prevenção.
Mais do que reagir à doença, é preciso antecipá-la. Diagnóstico precoce não começa com sintomas, começa com cuidado contínuo.
*Rafael Catramby é clínico geral da Hapvida
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, marca um divisor de águas na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde de seus colaboradores. Ao incluir formalmente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma amplia o olhar sobre o adoecimento ocupacional, reconhecendo que ele não se limita ao corpo, mas envolve também a mente e as emoções.
Embora a atualização já esteja em vigor, a obrigatoriedade com possibilidade de fiscalização e autuação passa a valer a partir de 26 de maio de 2026. Até lá, as organizações têm um período de adequação técnica, que exige planejamento, mapeamento de riscos e implementação de estratégias preventivas.
Essa mudança não surge por acaso. Nos últimos três anos, o Brasil registrou um aumento de 80% nos afastamentos relacionados à saúde mental, evidenciando um cenário preocupante e, ao mesmo tempo, urgente. Trata-se de um avanço civilizatório, que reconhece que ambientes de trabalho podem adoecer e que isso deve, e pode, ser prevenido.
Os chamados riscos psicossociais dizem respeito a fatores presentes no ambiente corporativo que impactam diretamente o bem-estar emocional dos trabalhadores. Metas excessivas, sobrecarga, lideranças abusivas, assédio moral e um clima organizacional hostil não são exceções isoladas, mas, muitas vezes, reflexos de estruturas adoecidas. É fundamental compreender que esses fatores não são fragilidades individuais, e sim questões sistêmicas que precisam ser enfrentadas com responsabilidade.
Na prática, a exigência da NR-1 traz uma nova camada de responsabilidade para as empresas. A avaliação psicossocial passa a ser uma ferramenta essencial para identificar setores críticos, padrões de liderança disfuncionais e dinâmicas que favorecem o esgotamento. O Burnout, por exemplo, não surge de forma repentina, ele é resultado de um contexto contínuo de pressão e desequilíbrio.
Mais do que cumprir uma exigência legal, as organizações precisarão promover uma verdadeira mudança cultural. Cuidar da saúde mental não pode ser reduzido a campanhas pontuais ou ações isoladas. Trata-se de uma construção contínua, que envolve escuta ativa, revisão de práticas e compromisso com ambientes mais saudáveis.
A atualização da NR-1 inaugura, portanto, uma nova fase no mundo corporativo. O cuidado com a saúde mental deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser uma obrigação legal, e, acima de tudo, um imperativo ético.
*Livia Drummond é psicóloga (CRP 03/23604) da Clínica Holos.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Não basta não ser machista. É preciso ser antimachista
Por Januário Mourão
Durante muito tempo, bastava aos homens dizerem que “não eram machistas” para se sentirem fora do problema. Como se a ausência de violência explícita fosse suficiente para absolvê-los de uma estrutura que se estrutura, justamente, nas pequenas ações do cotidiano. Mas essa ideia confortável já não se sustenta. Em uma sociedade marcada por desigualdades profundas de gênero, não se posicionar também é uma escolha e, muitas vezes, uma forma de manutenção. É nesse ponto que a discussão precisa avançar: não basta não ser machista...é preciso assumir um papel ativo na transformação.
O combate ao machismo não pode ser visto como uma responsabilidade exclusiva das mulheres, pois são os próprios homens que, historicamente, mais se beneficiaram e reproduziram essas estruturas. Por isso, é fundamental que assumam um papel ativo nessa transformação, reconhecendo seus privilégios, revendo comportamentos e questionando atitudes naturalizadas no dia a dia, desde piadas até formas mais explícitas de violência. Mais do que concordar com a causa, é preciso agir: ouvir, aprender, intervir quando presenciarem situações de machismo e promover relações mais justas e respeitosas. A mudança real só acontece quando os homens deixam de ser parte do problema e passam, de fato, a ser parte da solução.
Ao longo da minha trajetória como sexólogo e educador em sexualidade, além de anos de experiência como professor na área da saúde, fui percebendo algo que se repetia constantemente: muitas das dificuldades emocionais e sexuais enfrentadas por homens e mulheres estão profundamente ligadas a uma masculinidade rígida e tóxica, além da cultura patriarcal na qual fomos socializados e que ainda contamina a sociedade. Um exemplo disso é a presença de atitudes machistas vindas de mulheres e até mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Grande parte dos conflitos afetivos nasce da dificuldade masculina de lidar com frustração, vulnerabilidade e limites. Fomos ensinados a não demonstrar fragilidade, a competir o tempo todo e a entender o poder como parte essencial da identidade masculina. O resultado é que muitos homens acabam emocionalmente empobrecidos, incapazes de estabelecer relações mais maduras e equilibradas.
Outro ponto que precisa ser enfrentado é a tendência de associar o machismo apenas aos casos extremos de violência. Evidentemente, o feminicídio e as agressões físicas são expressões brutais desse problema. Mas o machismo também vive nas pequenas práticas do cotidiano que muitas vezes passam despercebidas ou são naturalizadas: interromper constantemente a fala de uma mulher, fazer piadas misóginas ou sexistas, evitar dividir tarefas domésticas, resistir a conversas sobre consentimento ou reagir de forma defensiva quando somos confrontados. Enquanto muitos homens acreditarem que não fazem parte do problema apenas porque não são violentos fisicamente, continuaremos presos a uma compreensão superficial do que é o machismo e suas consequências.
Foi justamente a partir dessas inquietações que criei o Antimachismo Social Club, um movimento que pretende estimular homens e mulheres a revisarem comportamentos cotidianos e assumirem um compromisso ativo contra o machismo. Ele nasce com a proposta de romper com o que gosto de chamar de “pacto de silêncio”. Um pacto que existe quando homens preferem ignorar comportamentos problemáticos dentro dos próprios grupos, evitando desconfortos e conflitos. Talvez um dos maiores desafios esteja justamente na dificuldade masculina de suportar o desconforto. Muitos homens confundem crítica estrutural com ataque pessoal. Mas reconhecer privilégios não significa perder espaço. Significa amadurecer socialmente.
Outra questão que considero fundamental para essa mudança é que a educação sexual nas escolas e nas famílias seja uma prática natural e consistente. Falar sobre consentimento, respeito, responsabilidade afetiva e comunicação nas relações não é apenas um tema de saúde ou comportamento, é também uma estratégia concreta de prevenção da violência.
Acredito que podemos criar uma geração de homens mais conscientes com relação a tudo que o machismo e o patriarcado trazem de ruim para a sociedade, para mulheres e para eles mesmos.
*Januário Mourão é Mestre e Doutor em Ciências Morfológicas pela UFRJ, e atuou como professor de Anatomia Humana em cursos da área da saúde e como gestor educacional em instituições privadas. É graduado em Fisioterapia e Gestão Financeira, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Especialista em Sexologia e Sexualidade Humana e em Psicanálise Clínica, une ciência, educação e comportamento em sua trajetória profissional. É fundador do projeto “Prazer! Te Conhecer”; do projeto “Antimachista Social Club”; e Diretor Operacional da Gaveta do Pensamento.
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias
Nova pesquisa sugere que ciência pode regenerar cartilagem do joelho
Por Marcelo Midlej
Durante décadas, a medicina aprendeu a conviver com uma limitação incômoda: a cartilagem articular, uma vez lesionada, praticamente não se regenera. Esse entendimento moldou a forma como tratamos milhões de pessoas com dor no joelho — aliviando sintomas, melhorando função, mas raramente mudando o curso da doença.
Agora, uma nova linha de pesquisa começa a questionar esse paradigma.
Estudos recentes apontam que a inibição de uma enzima específica, envolvida na degradação de prostaglandinas, pode estimular processos naturais de reparo da cartilagem. Em modelos experimentais, o bloqueio dessa via levou ao aumento de sinais biológicos associados à regeneração tecidual, com formação de cartilagem semelhante à original. Não se trata apenas de proteger o que resta, mas de, potencialmente, reconstruir o que foi perdido.
A descoberta é instigante por um motivo simples: ela desloca o foco do tratamento. Em vez de intervir apenas no “ambiente mecânico” da articulação — como fazemos com infiltrações, fisioterapia ou cirurgias — passamos a considerar a possibilidade de reprogramar o próprio tecido em nível molecular.
Mas é preciso cautela.
A história da medicina é repleta de promessas que funcionaram bem em laboratório, mas encontraram obstáculos no mundo real. A articulação humana é um sistema complexo, influenciado por carga, inflamação crônica, idade e fatores metabólicos. Reproduzir em pacientes o que foi observado em modelos experimentais ainda é um desafio significativo.
Ainda assim, o valor dessa pesquisa não está apenas na possibilidade imediata de um novo tratamento. Está, sobretudo, na mudança de perspectiva. Pela primeira vez em muito tempo, abre-se uma janela concreta para pensar a osteoartrite não apenas como uma condição degenerativa inevitável, mas como um processo potencialmente modificável.
Se essa abordagem se confirmar nos próximos anos, o impacto será profundo. O tratamento da dor articular poderá deixar de ser predominantemente paliativo para se tornar, de fato, regenerativo. E isso não representa apenas um avanço técnico — representa uma mudança na forma como envelhecemos em movimento.
A ciência ainda não chegou ao consultório. Mas, talvez, esteja mais perto do que nunca.
*Marcelo Midlej é médico ortopedista
*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias