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Acordo entre Opas e farmacêutica abre caminho para injeção semestral contra HIV chegar ao Brasil
Por Bruno Lucca | Folhapress
Um acordo entre a farmacêutica Gilead Sciences e a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), anunciado nesta terça-feira (15), abre nova via para que países da América Latina e do Caribe tenham acesso ao lenacapavir, medicamento injetável aplicado duas vezes por ano para prevenção do HIV.
O Brasil está entre os 14 países da região que poderão ser beneficiados. Todos estão fora dos acordos de licenciamento voluntário firmados pela empresa com fabricantes de genéricos e, por isso, dependem de negociações com a Gilead para aquisição da fórmula.
A assinatura do acordo, no entanto, não significa que o lenacapavir estará imediatamente disponível nos países. O comunicado da farmacêutica não informa preço, nem volume reservado para o Brasil, tampouco cronograma de fornecimento. Cada governo terá de decidir, antes, se adere à iniciativa.
No Brasil, o medicamento já venceu uma etapa regulatória importante. Em janeiro deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso do Sunlenca, nome comercial do lenacapavir, como PrEP (profilaxia pré-exposição), para adultos e adolescentes a partir de 12 anos de idade e com pelo menos 35 kg.
Segundo a agência, a comercialização ainda depende da definição de preço máximo pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos).
Para ser oferecido no SUS, o produto também precisa passar pela Conitec, comissão que avalia a incorporação de novas tecnologias, e receber decisão favorável do Ministério da Saúde. Em julho, a pasta tentou negociar diretamente com a Gilead a compra do medicamento, mas não teve sucesso nas tratativas.
A farmacêutica afirma que, apesar do acordo com a Opas, pretende continuar suas negociações junto ao governo brasileiro.
O lenacapavir é considerado uma das principais inovações recentes na prevenção do HIV porque reduz a necessidade de tomar comprimidos todos os dias. Aplicado sob a pele do abdômen a cada seis meses, o remédio bloqueia diferentes etapas do funcionamento do capsídeo, estrutura que envolve o material genético do vírus.
Nos estudos de fase 3 que embasaram a autorização sanitária, não houve infecções entre as mulheres cisgênero que receberam o medicamento no Purpose 1. No Purpose 2, feito com homens cisgênero e pessoas de gênero diverso —com participação de centros brasileiros—, o lenacapavir reduziu em 96% a incidência de HIV em comparação com a taxa esperada sem PrEP e foi 89% mais eficaz do que a profilaxia oral diária usada como comparador.
Os resultados não transformam o medicamento em vacina nem eliminam a necessidade de acompanhamento. Antes de cada aplicação, é preciso confirmar que a pessoa não tem HIV. A Anvisa alerta para o risco de surgimento de resistência caso alguém com infecção aguda ainda não identificada receba o produto ou demore a iniciar um tratamento eficaz após uma falha da PrEP.
Em julho de 2025, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou que o lenacapavir fosse oferecido como opção adicional dentro das estratégias de prevenção combinada. A possibilidade de apenas duas aplicações anuais pode ajudar pessoas que enfrentam dificuldade para manter o uso diário da PrEP ou que temem o estigma associado aos comprimidos.
EXCLUSÃO DO BRASIL PROVOCOU REAÇÃO
O caminho até o anúncio desta terça foi marcado por pressão de autoridades sanitárias e organizações da sociedade civil. Em outubro de 2024, a Gilead concedeu licenças voluntárias a seis fabricantes para produzir versões genéricas do lenacapavir destinadas a 120 países de baixa e média renda. O Brasil e a maior parte da América Latina ficaram de fora.
Naquele mês, o Conselho Nacional de Saúde aprovou uma moção de repúdio à decisão. O órgão argumentou que o Brasil havia participado do Purpose 2, mas fora excluído tanto da licença para genéricos quanto da lista inicial de países prioritários para registro.
O texto também defendeu que o governo retomasse o debate sobre licenciamento compulsório —a chamada quebra de patente —caso o preço impedisse o acesso pelo SUS.
A controvérsia se manteve mesmo depois do aval da Anvisa. Em julho deste ano, o diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, afirmou que o governo e a empresa não haviam chegado a um acordo de curto prazo para incorporar o lenacapavir. Segundo ele, a proposta brasileira foi de US$ 400 por pessoa ao ano.
A Gilead não confirmou o valor nem informou qual preço buscava. Disse apenas que as conversas continuavam e que havia assinado um memorando de entendimento com a Fiocruz para estudar uma possível transferência de tecnologia.
O candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União) apresentou, nesta terça-feira (15), detalhes do Pix Saúde, proposta que prevê a contratação de hospitais particulares e filantrópicos para ampliar o atendimento a pacientes do SUS em situações de urgência.
Neto explicou que a ideia é credenciar unidades de saúde de diferentes regiões do estado e estabelecer uma tabela própria de remuneração, com valores superiores aos pagos atualmente pelo SUS. “A ideia do Pix Saúde é a gente fazer um credenciamento em toda a Bahia de hospitais filantrópicos e hospitais particulares”, afirmou em entrevista à Bahia Meio Dia, da TV Bahia.
Segundo ele, a remuneração adicional teria como objetivo estimular a oferta de leitos e procedimentos à rede pública. A proposta teria como prioridades tratamentos oncológicos, procedimentos ortopédicos e casos de urgência e emergência com risco à vida. Neto citou como referência um modelo adotado em São Paulo, que complementa os valores pagos pelo SUS.
Apesar do nome, o programa não prevê transferência de dinheiro para os pacientes. O pagamento seria feito diretamente pelo governo aos hospitais credenciados, após a realização e comprovação dos procedimentos. Neto também afirmou que o modelo teria mecanismos de fiscalização e transparência, com acompanhamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA), do Ministério Público (MP-BA) e da Controladoria do Estado.
Após convite de Caiado, Ludhmila Hajjar nega convite para assumir eventual Ministério da Saúde
Por Redação
A médica Ludhmila Hajjar negou o convite do candidato à presidência da República, Ronaldo Caiado (PSD), para assumir um possível Ministério da Saúde, na gestão do ex-governador de Goiás. Em entrevista ao Metrópoles, nesta segunda-feira (14), a especialista se mostrou surpresa com o convite, agradeceu pelo reconhecimento ao seu trabalho, mas desconsiderou o posto.
“Fiquei surpresa com a declaração e recebo o elogio como um importante reconhecimento. Assumir o Ministério da Saúde não está nos meus planos e não é uma opção que eu considere”, falou Ludhmila à coluna de Matheus Leitão.
Ela explicou que, no momento, tem outros projetos em mente.
“Estou profundamente envolvida na construção do Hospital Inteligente e na implementação de um novo modelo de medicina inteligente no Brasil, um projeto estratégico do governo federal em parceria com o Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos Brics”, completou.
“Por isso, meu foco e minha contribuição ao país estão concentrados na execução desse projeto e na transformação da saúde brasileira a partir dele”, completou Ludhmila.
O cacique Raoni Metuktire, de 94 anos, foi diagnosticado com um adenocarcinoma pouco diferenciado no aparelho digestório e está recebendo cuidados paliativos em casa, em Peixoto de Azevedo, em Cuiabá. A informação foi divulgada pelo Instituto Raoni, nesta segunda-feira (14).
A recomendação médica considera a idade do líder indígena, as condições clínicas e os riscos de tratamentos mais agressivos. O diagnóstico ocorreu após um período de agravamento do quadro de saúde ao longo de 2026, marcado por internações e exames.
Em junho, ele apresentou uma obstrução intestinal grave provocada pelo tumor e foi transferido de emergência para São Paulo. No hospital, Raoni passou por uma gastroenteroanastomose para restabelecer a passagem dos alimentos e melhorar as condições de alimentação e conforto. Após o procedimento, novos exames confirmaram o câncer.
Jerônimo destaca expansão da saúde no interior e promete 450 novas unidades para próximo mandato
Por Redação
O governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues (PT), destacou a ampliação da rede pública de saúde no interior da Bahia durante entrevista nesta segunda-feira (14). Segundo ele, a abertura de hospitais e serviços especializados reduziu a necessidade de deslocamentos para tratamentos de alta complexidade.
O gestor afirmou ter entregue 15 novos hospitais em 3 anos e meio e citou a oferta de tratamento contra o câncer em Barreiras e Teixeira de Freitas como exemplo da descentralização dos serviços. “Eu entreguei 15 novos hospitais em três anos e meio. Hoje, as pessoas não precisam mais andar 2 mil quilômetros de ida e volta porque em Barreiras e em Teixeira de Freitas já se faz tratamento de câncer”, afirmou.
Entre as estruturas citadas estão o Hospital Geral do Oeste e o Hospital Estadual Costa das Baleias. A rede estadual também conta, segundo o candidato, com 27 policlínicas e o Samu universalizado em todas as regiões da Bahia. Para a próxima gestão, caso seja reeleito, Jerônimo apresentou a proposta de construir 450 novas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e seis policlínicas regionais, previstas para Remanso, Seabra, Ipirá, Itapetinga, Barra e Ibotirama.
O candidato também prometeu apoiar prefeituras na construção de hospitais municipais e citou Feira de Santana como exemplo de cidade que ainda não possui uma unidade desse tipo. “Eu quero e vou apoiar os prefeitos a construir hospital, investir em equipamentos e nos serviços”, disse.
Entre os compromissos apresentados estão ainda cinco novos hospitais e maternidades estaduais, em Jacobina, Itapetinga, Valença, Amargosa e Serrinha, além de um hospital em Paulo Afonso, em parceria com o governo federal. Jerônimo também anunciou a previsão de implantação do Serviço Estadual de Cirurgia Robótica no Hospital Geral Roberto Santos.
O Ministério da Saúde ampliou, nesta segunda-feira (14), o público-alvo da vacina pneumocócica 20-valente (Pneumo20) pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). A partir de agora, idosos com 85 anos ou mais podem receber o imunizante. A vacina protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, associada a doenças como pneumonia, meningite e otite média.
A medida busca ampliar a proteção dos idosos contra formas graves das infecções e diminuir hospitalizações e mortes. A Pneumo20 será introduzida gradualmente em substituição às vacinas Pneumo10, Pneumo13 e Pneumo23. Embora não cubra mais sorotipos que a Pneumo23, a versão conjugada apresenta resposta imunológica mais robusta e capacidade de gerar memória imunológica, além de reduzir a colonização pelo pneumococo.
De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 2,3 milhões de pessoas integram o novo público-alvo no país. A meta estabelecida pela pasta é vacinar 90% desse grupo. As infecções pneumocócicas podem se tornar mais graves com o avanço da idade, devido ao processo natural de envelhecimento do sistema imunológico e à maior ocorrência de comorbidades.
Além do sistema respiratório, as doenças podem provocar complicações cardíacas, renais e no sistema nervoso central. A Pneumo20 também está disponível para crianças menores de 5 anos. Para os idosos incluídos no novo grupo, basta apresentar um documento que comprove a idade para receber a vacina, sem necessidade de prescrição médica.
Conselho Nacional do Ministério Público cria sistema para fiscalizar saúde pública e privada
Por Mauricio Leiro / Lizzy Maria
O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) anunciou a criação de um grupo de trabalho focado em criar, de forma inédita, um sistema nacional para monitorar e avaliar a fiscalização do setor de saúde pública e privada no Brasil. Vinculado à Comissão da Saúde da instituição, o coletivo foi criado com a missão de implementar o Sistema Nacional de Avaliação e Monitoramento Anual da Atuação do Ministério Público Brasileiro na Área da Saúde.
A iniciativa busca traçar um diagnóstico abrangente em âmbito nacional sobre o desempenho ministerial na garantia do direito à saúde pública e suplementar. Além do mapeamento, o grupo terá a tarefa de elaborar propostas com parâmetros mínimos de organização, estrutura, transparência e acompanhamento contínuo para uniformizar e aprimorar as ações praticadas pelas diversas unidades do Ministério Público.
Sob a coordenação da promotora de Justiça Rocío Garcia Matos, do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), o grupo reúne especialistas e representantes do Ministério Público Federal (MPF) e das unidades do Ceará, Minas Gerais, Pará e Pernambuco. Os profissionais atuarão de forma conjunta sem deixar seus cargos atuais e sem custos extras para a administração pública.
A medida, assinada pelo presidente do conselho, Paulo Gustavo Gonet Branco, entrou em vigor na última quinta-feira (10). A equipe terá um prazo inicial de 18 meses para concluir os levantamentos e apresentar as diretrizes finais, com possibilidade de prorrogação das atividades.
Governo prevê alta de 25% nos gastos com BPC para pessoas com deficiência em 2027
Por Idiana Tomazelli | Folhapress
Os gastos com BPC (Benefício de Prestação Continuada) para pessoas com deficiência devem subir 25,4% em 2027 na comparação com o previsto inicialmente para este ano, segundo a proposta de Orçamento enviada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Isso significa uma despesa de R$ 83,9 bilhões com a política no ano que vem, exatos R$ 17 bilhões a mais que os R$ 66,9 bilhões reservados no Orçamento de 2026. Os valores não consideram o BPC para idosos, que deve custar outros R$ 60,3 bilhões em 2027.
O BPC é um benefício assistencial de um salário mínimo (R$ 1.621) pago a idosos e a quem tem deficiência, desde que a renda familiar seja de até um quarto do salário mínimo por pessoa (o equivalente a R$ 405,25). Quando há elevado comprometimento da renda com gastos de saúde, esse limite pode ir a meio salário mínimo (R$ 810,50).
Nos últimos anos, a concessão do benefício para pessoas com deficiência passou por uma expansão acelerada, o que acendeu alerta no governo. Em 2026, a equipe econômica já precisou revisar os números e reconhecer que a despesa alcançará R$ 79 bilhões para bancar benefícios a pessoas com deficiência.
Quando comparada com esse valor, a reserva para 2027 cresce apenas 6,2%, o que não cobre nem mesmo o reajuste previsto para o salário mínimo (7,4%). Isso significa que ou o governo antevê leve redução no número de beneficiários, ou a despesa pode estar subestimada.
Levantamento feito pela Folha a partir de dados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), órgão responsável por operacionalizar os pedidos e as concessões, mostra que dois fatores impulsionam a concessão de benefícios para pessoas com deficiência: decisões judiciais e diagnósticos enquadrados como autismo infantil.
As concessões judiciais saíram de 48,4 mil casos em 2021 para 207,4 mil em 2025, expansão de 328,9%. Elas também passaram a representar uma fatia cada vez maior do total de benefícios implantados para pessoas com deficiência: eram 26,8% em 2021 e subiram a 46,1% no ano passado.
A judicialização do benefício cresceu em momentos de maior demora no atendimento, devido às filas do INSS, mas técnicos do governo também veem uma exploração dessa via para obter benefícios que talvez não fossem concedidos na análise administrativa.
O governo fez um acordo com o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para padronizar as avaliações, para considerar não só a existência ou não da doença, mas também se ela impõe limitações --critério já analisado na via administrativa. Mas sua aplicação foi adiada para novembro.
Um integrante do governo ouvido sob reserva afirma que o Judiciário, mesmo com a avaliação padronizada, ainda poderá julgar de forma subjetiva o critério de miserabilidade previsto no programa, o que amplia sua cobertura.
Após a concessão judicial, o autismo infantil é o principal motivo de concessão do BPC para pessoas com deficiência. O número de benefícios implementados sob esse código CID (Classificação Internacional de Doenças) saiu de 15,1 mil em 2021 (8,4% do total) para 78,5 mil em 2024 (com 15,4% de participação).
Em 2025, as concessões caíram a 60 mil, possivelmente influenciadas pelo represamento do BPC devido à suspensão temporária das análises de novos requerimentos. Já neste ano, voltaram a subir: alcançaram 60,7 mil de janeiro a julho, quase superando o ano passado inteiro. A quantidade ainda é 37% maior do que o observado nos sete primeiros meses de 2025.
Os dados mostram quando essas concessões mudaram de patamar. Entre janeiro de 2021 e abril de 2022, a média mensal de novos benefícios para esses casos era de 1.303. Em maio de 2022, as concessões dobraram em relação ao mês anterior --e dobraram mais uma vez em junho, chegando a 5.538. Dali até maio de 2023, a média mensal ficou em 3.819.
A partir de junho de 2023, as concessões para autismo infantil subiram de patamar novamente e ficaram numa média mensal de 6.401 até agosto de 2025. A suspensão das análises derrubou os números no fim do ano passado, mas a expansão foi retomada em 2026 --com média mensal de 9.663 desde fevereiro.
Para Liliane Bernardes, especialista em políticas públicas e gestão governamental do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), diferentes fatores explicam o aumento. Um deles seria a regularização do fluxo de perícias médicas e avaliações sociais em 2021 e 2022, após a pandemia de Covid-19.
Além disso, desde a aprovação da política nacional para pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), em 2012, o conhecimento sobre o tema se disseminou. Houve ampliação do acesso ao diagnóstico e mudanças nos critérios de classificação, que passaram a abarcar um espectro mais amplo de manifestações.
"Aumentou significativamente o universo de pessoas identificadas com TEA e, consequentemente, o universo potencial de requerentes do BPC entre as famílias que atendem também ao critério socioeconômico", diz.
Em nota, os ministérios do Desenvolvimento Social, responsável pelo BPC, e da Previdência, que atua nas perícias médicas e avaliações sociais, também veem possível relação com a alta dos diagnósticos.
Bernardes, do Ipea, observa ainda que, em janeiro de 2022, a Caderneta da Criança, do Ministério da Saúde, passou a incluir instrumentos para rastrear sinais de risco para TEA, o que pode ter contribuído para ampliar a identificação de casos e a concessão de benefícios a partir de maio daquele ano. Essa, porém, é uma hipótese ainda a ser investigada.
A especialista do Ipea afirma também que a CID registrada no processo identifica uma condição de saúde, mas não é suficiente para medir o grau de deficiência, as limitações funcionais e as barreiras enfrentadas no dia a dia. Segundo ela, a avaliação desses últimos aspectos é o que deveria nortear a caracterização da deficiência.
"No caso do autismo, isso é relevante porque o espectro abrange pessoas com necessidades de apoio e repercussões funcionais muito diferentes. Por isso, o crescimento das concessões associadas a CID F84.0 [autismo infantil] mostra uma mudança importante na composição do público do BPC, mas isso sozinho não permite concluir se houve mudança no perfil de gravidade ou nas condições de funcionalidade dos novos beneficiários", afirma.
Segundo o Ministério da Previdência, a classificação de nível do autismo (1, 2 ou 3, a depender do grau de suporte demandado para realizar atividades diárias) não constitui critério legal para concessão do BPC.
"O foco da avaliação não é a doença isoladamente considerada nem a classificação clínica do transtorno, mas seus impactos reais sobre a funcionalidade da pessoa", diz a pasta. "Assim, pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber resultados diferentes na avaliação, porque a funcionalidade e as barreiras enfrentadas podem ser completamente distintas."
Os dados do INSS não permitem visualizar quanto desses benefícios ainda estão ativos até hoje, nem quantos foram cessados (o que pode acontecer por diferentes motivos, como mudanças de renda e evolução no quadro do beneficiário). Mas o aumento das concessões, com reflexo sobre as despesas, tem chamado a atenção.
Em 2024, o Executivo tentou restringir o acesso ao programa para conter despesas, mas a medida não teve apoio do Congresso.
A diretora de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Leticia Bartholo, afirma ser prematuro sugerir mudanças sem diagnóstico mais preciso sobre o fenômeno e diz que o ministério do Desenvolvimento Social solicitou apoio do órgão para avançar nessas análises. Um dos trabalhos em andamento busca medir o potencial de cobertura do BPC para pessoas com deficiência. As primeiras conclusões mostram que o tamanho do público está em acordo com as regras, embora haja disparidades regionais.
Inspirado na Toyota, método reduz em 25% o tempo de internação em hospitais do SUS
Por Luis Eduardo de Sousa | Folhapress
Mais de cem hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde) implementaram uma estratégia de redução de desperdícios inspirada na linha de produção da Toyota, para agilizar o atendimento e reduzir a sobrecarga em unidades de urgência e emergência.
Gestado no âmbito do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS), o programa terminou o biênio 2024-2025 com redução de 25% no tempo de internação de pacientes de 104 hospitais, distribuídos em 20 estados e no Distrito Federal. Houve ainda uma redução de 45% no tempo de espera para atendimento e de 14% na permanência hospitalar geral.
A iniciativa contemplou 99 municípios no último biênio. A maior parte dos hospitais está em Minas Gerais, que lidera com 20 unidades adeptas.
Batizada de Lean nas Emergências, a estratégia consiste em revisar procedimentos em prática nos hospitais para cortar excessos e desperdícios, como atrasos na entrega de exames ou uso desnecessário de insumos. Parte-se da premissa de que o tempo do paciente (e dos profissionais) é valioso e não pode ser desperdiçado.
"O projeto é baseado na filosofia Lean, do sistema de produção da Toyota. Na indústria, é utilizado para reduzir desperdícios e deslocamentos desnecessários. A gente aplica a mesma lógica na saúde", diz Carina Tischler Pires, gerente de projetos do Sirio-Libanês e responsável pelo Lean.
A filosofia Lean é uma forma de organizar processos para evitar desperdícios e atividades que não agregam valor ao produto ou serviço, tornando o trabalho mais eficiente. A ideia é identificar etapas desnecessárias, esperas, deslocamentos e retrabalho e eliminá-los ou reduzi-los sem comprometer aquilo que efetivamente gera valor. Na saúde, a lógica é adaptada para o atendimento.
Segundo Carina, os cortes são feitos em etapas que não interferem na relação entre médico e paciente durante o atendimento.
"Uma consulta clínica, por exemplo, é fundamental para o médico compreender, no tempo necessário, as necessidades do paciente. Aí o médico faz a consulta, pede um exame que fica pronto em duas horas e demora três para chegar. O paciente perdeu cinco horas no hospital", diz.
"Ao esperar menos, o paciente permanece menos no hospital, reduz a lotação, reduz o gasto com insumos e aumenta a capacidade de atendimento com a mesma equipe", acrescenta.
Estatisticamente, ao permanecer menos tempo no hospital, o paciente é tratado com mais efetividade e reduz os riscos de contrair uma infecção hospitalar que vai exigir mais da assistência.
O Lean nas Emergências é coordenado por seis hospitais privados que integram o Proadi: Sírio-Libanês, Einsten, Moinhos de Vento, Hcor, Beneficência Portuguesa e Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
O Proadi-SUS é financiado com recursos correspondentes a contribuições sociais que os hospitais deixam de recolher em razão da imunidade tributária assegurada. Em contrapartida, as instituições devem aplicar valor equivalente em projetos e ações que beneficiem o SUS.
No último triênio do Proadi-SUS (2024–2026), o Ministério da Saúde projetou R$ 3,05 bilhões em gasto tributário associado às entidades participantes. O relatório, contudo, ainda não registrava valor executado para este ciclo, que está em andamento. Nos triênios anteriores (2009–2023), o total de valor executado registrado pelo ministério foi de R$ 7,48 bilhões.
Carina afirma que o Lean nas Emergências não é um projeto custoso, uma vez que utiliza apenas recursos disponíveis nos hospitais. O gasto envolve apenas a logística dos profissionais que viajam para os hospitais participantes a título de capacitar as equipes.
Quando um hospital passa a integrar o projeto, uma equipe vai até o local para inicialmente identificar as condições da unidade: recursos estruturais, capacidade de atendimento e pessoal.
Identificados os desperdícios, os coordenadores do Lean fazem uma capacitação in loco com os profissionais de saúde para apontar onde os cortes podem ser feitos. Os profissionais passam ainda por uma capacitação online, na qual conhecem experiências realizadas em outros hospitais.
"Uma vez que a mesma equipe atende mais pacientes, a gente consegue liberar mais leitos, atender os pacientes mais rápido e gastar menos recursos dos hospitais", afirma Luiz Augusto Rodrigues, coordenador de projetos do Sírio-Libanês.
O acordo com o Ministério da Saúde prevê que, após a implementação da metodologia, os hospitais beneficiados deem continuidade ao trabalho.
Segundo dados do Proadi, ao longo do último triênio, os hospitais participantes implementaram 1.230 pequenas melhorias de processo, fizeram 1.417 visitas técnicas e propuseram 11.080 ações. O índice de execução das práticas pelos beneficiários é de 86%.
Nas unidades participantes, estima-se que 2.083 leitos foram liberados sem necessidade de expansão física, apenas reduzindo o tempo de ocupação.
Anvisa proíbe venda de produto metabólico irregular e restringe uso de berberina no Brasil
Por Redação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão do SOLL*Q-75, comercializado diretamente ao consumidor como produto da Medicina Tradicional Chinesa para problemas metabólicos. Segundo a agência, o item era vendido sem prescrição e sem registro como medicamento, além de apresentar alegações terapêuticas que não eram permitidas para esse tipo de produto.
Fabricado pelas empresas Método Quantumbio e Nattubras, o SOLL*Q-75 utilizava o enquadramento da Medicina Tradicional Chinesa, que prevê regras específicas e um processo de regularização simplificado para determinados produtos. Para a Anvisa, porém, as promessas de tratamento feitas pelo produto ultrapassavam os limites dessa classificação.
A resolução publicada no Diário Oficial da União também proibiu fabricação, distribuição e propaganda de produtos à base de berberina que não tenham registro, notificação ou cadastro sanitário no Brasil, ainda que não tenham sido identificados nominalmente pela agência.
A substância ganhou espaço nas redes sociais sob o apelido de “Ozempic Natural”, com divulgação de supostos efeitos semelhantes aos do medicamento para emagrecimento. As evidências científicas disponíveis, no entanto, ainda são preliminares e inconclusivas sobre a capacidade da berberina de promover perda de peso.
Os estudos apontam evidências clínicas ainda limitadas para possíveis efeitos na redução do colesterol e no controle da glicose, especialmente em pessoas com diabetes tipo 2 e quando utilizada junto a outros tratamentos. O uso oral também pode provocar reações como dor abdominal, diarreia, constipação, náuseas, vômitos, flatulência, distensão abdominal e dor de cabeça.