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Cuidar de quem cuida também é parte do cuidado

Por Milena Lima

Cuidar de quem cuida também é parte do cuidado
Foto: Divulgação

Há uma dimensão do trabalho que nem sempre aparece nos indicadores, nos protocolos ou nas descrições de cargo: a dimensão humana. Em ambientes de alta exigência, como os hospitais, lembrar disso deixou de ser apenas uma escolha de cultura organizacional. É uma necessidade.

 

Quem trabalha na área da saúde convive diariamente com histórias, expectativas, dúvidas, sofrimento e, muitas vezes, situações que exigem decisões rápidas e equilíbrio emocional. Mas, antes de ser médico, enfermeiro, recepcionista, maqueiro, profissional de serviços gerais ou integrante de uma área administrativa, existe uma pessoa. E essa pessoa também precisa ser ouvida.

 

Quando falamos em experiência do paciente, é comum pensarmos imediatamente no atendimento que ele recebe. Mas essa jornada começa muito antes de uma consulta, de um procedimento ou de uma conversa com um profissional. Ela é construída a cada contato, em cada ambiente, em cada gesto. Por isso, também passa pela forma como as pessoas envolvidas nesse percurso se relacionam, se comunicam e compreendem o propósito do próprio trabalho.

 

É nesse contexto que iniciativas de escuta ganham relevância. Criar espaços para conversar, compartilhar vivências e ouvir quem está no cotidiano da assistência permite enxergar situações que, na rotina acelerada, podem passar despercebidas.

 

O "Acolher quem Acolhe" nasceu com essa perspectiva. Os encontros presenciais reúnem equipes de diferentes áreas e categorias para falar sobre propósito, missão, visão e valores, mas também para compartilhar casos vividos por pacientes, discutir situações do cotidiano e refletir sobre o papel de cada pessoa dentro da jornada de cuidado.

 

Não se trata apenas de falar sobre a função. Trata-se de olhar para o ser humano que existe por trás dela e que faz ela acontecer.

 

Essa mudança de perspectiva é especialmente importante em um ambiente hospitalar. O cuidado é coletivo. Não pertence exclusivamente a quem está diante do paciente. A jornada também é influenciada por quem recebe, orienta, conduz, transporta, organiza, apoia ou simplesmente estabelece um contato ao longo do caminho.

 

Por isso, acolher não pode ser entendido como tarefa de uma única área. É uma atitude que precisa atravessar as relações e fazer parte da cultura.

 

Também precisamos reconhecer que escutar não significa necessariamente ter respostas imediatas para todas as situações. Muitas vezes, o primeiro passo é permitir que as pessoas expressem o que vivem, compartilhem suas percepções e compreendam que essas percepções têm espaço dentro da organização.

 

Quando existe escuta, existe a possibilidade de compreender melhor. Quando existe compreensão, podemos buscar caminhos mais adequados para lidar com os desafios.

 

Em mais de um ano de atuação, o "Acolher quem Acolhe" já percorreu diferentes cidades brasileiras e reuniu aproximadamente 4 mil participantes. A chegada a novas frentes de atuação representa mais uma oportunidade de levar essa reflexão a quem vive, todos os dias, diferentes momentos dessa jornada.

 

O desafio está justamente em não perder de vista aquilo que nenhuma tecnologia, protocolo ou processo substitui: pessoas cuidam de pessoas.

 

Em uma época em que tanto se fala sobre produtividade, desempenho e resultados, talvez seja necessário recuperar uma pergunta mais simples: como estão as pessoas que fazem tudo isso acontecer?

 

Cuidar de quem cuida não significa afastar ninguém de sua responsabilidade. Pelo contrário. Significa reconhecer que oferecer um cuidado de qualidade também depende de relações mais conscientes, de comunicação, de empatia e de espaços em que cada pessoa possa ser vista para além de sua função.

 

No fim, o cuidado que queremos oferecer ao paciente começa também em como cuidamos de quem está ao seu lado. E talvez essa seja uma das formas mais importantes de entender o acolhimento: antes de cuidar melhor, precisamos lembrar que, em qualquer posição dentro de um hospital, continuamos sendo humanos.

 

*Milena Lima é gerente nacional de Experiência do Paciente da Hapvida e idealizadora do programa "Acolher quem Acolhe"

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias