O exame esquecido: por que ainda diagnosticamos tarde a doença renal crônica?
Há exames que se tornaram parte da cultura médica e da expectativa do paciente. O colesterol é um deles. Basta uma consulta de rotina para que sua ausência na solicitação cause estranhamento. Com a creatinina, isso não acontece.
Entretanto; creatinina alta, normalmente, é pior do que colesterol alto. A invisibilidade é tamanha que, em uma campanha recente, cogitou-se o slogan “Creatinina para Todos”. A ideia foi abandonada – e ajustamos os dizeres para “Exame de Creatinina para Todos” - em razão do alto risco da confusão com o ilustre parônimo. O suplemento creatina, que veio bem depois, tornou-se mais popular do que o exame que pode diagnosticar a doença renal antes do aparecimento dos sintomas.
A doença renal crônica é, talvez, uma das condições mais subdiagnosticadas da prática clínica contemporânea. Não por ser rara ou de difícil identificação - ao contrário. Trata-se de uma condição frequente, silenciosa e progressiva, cujo diagnóstico, na maioria dos casos, depende de dois exames simples: a dosagem de creatinina no sangue e um exame de urina. Ainda assim, milhões de brasileiros convivem com algum grau de comprometimento renal sem saber.
O problema não está na ausência de tecnologia. Está na ausência de sistematização. Não incorporamos, de forma consistente, o rastreamento da doença renal crônica à consulta médica de rotina, inclusive na atenção primária - justamente o espaço onde o diagnóstico deveria acontecer. O resultado é conhecido: pacientes que chegam tardiamente ao sistema, muitas vezes já em estágios avançados, quando as possibilidades de intervenção são mais limitadas e mais custosas — para o indivíduo e para o próprio sistema de saúde.
É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. Falhamos enquanto sistema ao não priorizar o diagnóstico precoce de uma condição cuja identificação é simples e cujo impacto é profundo. Mas há também razões para um olhar construtivo.
Nos últimos anos, a nefrologia brasileira tem buscado enfrentar esse desafio de forma mais estruturada. A Sociedade Brasileira de Nefrologia vem investindo em iniciativas voltadas à ampliação do diagnóstico precoce, com destaque para o projeto Epi-DRC, além de ações contínuas de capacitação de profissionais da atenção primária - um passo importante para transformar conhecimento em prática.
Em 2025, o projeto avaliou 8.374 pessoas em 40 cidades brasileiras. Cerca de 3.370 apresentaram alterações na creatinina e foram encaminhadas para confirmação diagnóstica e tratamento - indivíduos que, até então, desconheciam sua condição. Duas em cada três das pessoas avaliadas sequer sabiam quais seriam os fatores de risco para doença renal crônica. Em 2026, o projeto foi ampliado para 12 mil testes, com acompanhamento dos casos identificados. Trata-se de um esforço relevante e, sob muitos aspectos, inédito no mundo. Mas é preciso reconhecer: iniciativas pontuais, por mais robustas que sejam, não substituem política pública estruturada.
O Brasil dispõe de uma das maiores redes de atenção primária do mundo, com cerca de 40 mil Unidades Básicas de Saúde. É nesse nível de atenção que o diagnóstico precoce deve ser incorporado de forma sistemática, especialmente em grupos de risco como pacientes com hipertensão, diabetes, obesidade e idosos. Transformar essa realidade exige mais do que evidência científica. Exige coordenação, financiamento, protocolos claros e, sobretudo, constância.
Constância das instituições, constância dos profissionais de saúde, constância das políticas públicas. E exige também engajamento. Da comunidade médica, ao incorporar de forma rotineira exames simples que fazem diferença. Do sistema de saúde, ao priorizar o que é custo-efetivo. E da sociedade, ao compreender que prevenção não é acessório - é estratégia.
Enquanto falamos de performance e ganhos rápidos, a creatina ganhou espaço na prateleira. Ganhou popularidade. A creatinina, não. E, no entanto, é ela que, muitas vezes, separa dois caminhos: o da descoberta precoce e o da surpresa tardia. Talvez o desafio não seja apenas técnico. Talvez seja cultural. A doença renal crônica não precisa ser uma descoberta tardia. Os exames estão disponíveis - inclusive no Sistema Único de Saúde. Falta transformar o óbvio em rotina.
Não se trata de tecnologia sofisticada ou de soluções complexas. Às vezes, tudo começa com um exame que ninguém pediu. Ou que ninguém lembrou: a creatinina.
*José A. Moura Neto é Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia
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