Candidatos divergem sobre concessões, estatização e parcerias em infraestrutura
Por Eduarda Pinto / Ronne Oliveira
Com abordagens que variam entre a continuidade de grandes obras em articulação com a União, a centralidade do investimento público estatal e a ampliação da participação da iniciativa privada, os três principais candidatos, ACM Neto (União), Jerônimo Rodrigues (PT) e Ronaldo Mansur (PSOL), divergem em propostas de infraestrutura no executivo baiano.
Pensando nisso, o Bahia Notícias (BN) mostra, entre os programas de governo dos três principais candidatos ao governo da Bahia nas eleições de 2026, quais são suas ideias para a infraestrutura do estado. Nesta reportagem, serão destacadas as principais propostas dentro dos planos de governo.
Um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aponta que o Brasil investe cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, percentual inferior aos 4,5% considerados necessários para sustentar níveis mais elevados de desenvolvimento econômico e ampliar a competitividade do país.
Na Bahia, os desafios também aparecem em indicadores setoriais. Segundo o Índice de Infraestrutura do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o estado registra 47,86 pontos e ocupa a 14ª colocação no ranking nacional, refletindo gargalos em áreas como saneamento básico, mobilidade urbana e meio ambiente.
Embora os três programas defendam a expansão da infraestrutura como instrumento de desenvolvimento econômico e integração regional, divergem sobre o papel do governo federal, do Estado e do capital privado na execução dos projetos.
JERÔNIMO RODRIGUES (PT)
O candidato petista pauta sua proposta na continuidade e ampliação de grandes obras estruturantes, destacando a articulação com o Governo Federal por meio do Novo PAC, programas habitacionais e financiamentos do BNDES.
Em seu balanço de gestão, o candidato alega que foi feita a realização de intervenções em 8,1 mil quilômetros de rodovias estaduais entre 2023 e 2026, defendendo a manutenção da capacidade de investimento do estado associada à captação de recursos federais.
As propostas apresentadas por Jerônimo Rodrigues incluem:
- Infraestrutura Rodoviária: pavimentação e recuperação de 4 mil quilômetros de rodovias baianas em todos os territórios de identidade, além da melhoria de estradas vicinais e acessos a assentamentos, comunidades rurais e territórios tradicionais;
- Ponte Salvador–Ilha de Itaparica: continuidade da execução da obra, considerada estratégica para integrar a Região Metropolitana de Salvador, o Recôncavo e o Baixo Sul;
- Ferrovias: articulação com a União para expansão dos trechos I e II da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e do Porto Sul, além do acompanhamento dos investimentos da VLI/Ferrovia Centro-Atlântica (FCA);
- Mobilidade Urbana: conclusão do Tramo IV da Linha 1 do Metrô de Salvador (Lapa–Campo Grande), expansão da rede do VLT e desenvolvimento, em parceria com o Governo Federal, do VLT Camaçari–Alagoinhas;
- Logística e Energia: implantação de um Parque Logístico no Centro Industrial de Aratu (CIA/Norte) e articulação para conclusão de 6 mil quilômetros de linhas de transmissão voltadas ao escoamento de energia renovável;
- Prevenção e Drenagem: ampliação de obras de contenção de encostas e de sistemas de drenagem e macrodrenagem urbanas.
RONALDO MANSUR (PSOL)
O candidato Ronaldo Mansur estrutura suas diretrizes na ampliação do investimento público e no fortalecimento do controle estatal da infraestrutura, posicionando-se contra concessões e privatizações de serviços considerados estratégicos. Em seu diagnóstico, Mansur aponta o envelhecimento da malha rodoviária estadual e a falta de manutenção como fatores que elevam os custos logísticos e dificultam a circulação de mercadorias.
O candidato também critica a transferência de rodovias federais para os estados, por considerar que a medida ampliou os encargos dos governos estaduais sem a correspondente ampliação de recursos. Entre as principais propostas estão:
- Investimento e Planejamento Estatal: programa de investimentos públicos para modernização da logística estadual, mantendo o controle estatal sobre os ativos considerados estratégicos;
- Diversificação de Modais: expansão dos transportes ferroviário, fluvial e metroviário e maior integração entre os diferentes sistemas;
- Metrô de Salvador: ampliação da rede metroviária acompanhada da abertura de investigações sobre a gestão do sistema;
- Ordenamento Urbano e Ambiental: integração entre planejamento urbano, mobilidade e uso do solo sob coordenação estatal;
- Infraestrutura Comunitária: realização de pequenas obras locais por meio da contratação de trabalhadores das próprias comunidades, com foco na geração de emprego e renda.
ACM NETO (UNIÃO)
O candidato Antonio Carlos Magalhães Neto apresenta um diagnóstico crítico sobre o que classifica como "isolamento logístico" da Bahia. Segundo ele, o estado enfrenta dificuldades decorrentes da falta de integração entre modais de transporte e da demora na execução de obras consideradas estratégicas.
O candidato também aponta problemas na concessão das BRs 116 e 324 à ViaBahia, menciona a extinção do Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia (Derba) e critica a condução do projeto da Ponte Salvador–Itaparica ao longo dos governos petistas. Para reestruturar o setor, ACM Neto propõe:
- Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI): criação de uma estrutura voltada à formulação e gestão de concessões, PPPs e processos de desestatização, incorporando a Agerba e a Agersa;
- Recuperação Rodoviária: elaboração de um plano emergencial para rodovias federais e estaduais, com definição de responsabilidades e busca de financiamento externo;
- Malha Ferroviária: cobrança ao Governo Federal e às concessionárias pela conclusão do Trecho 1 da FIOL e pela operação do Porto Sul, além do incentivo a ramais ferroviários regionais e portos secos;
- Setor Aeroviário: atualização do Plano Aeroviário da Bahia, requalificação de aeroportos do interior e estudos para implantação de um novo aeroporto no Litoral Norte;
- Portos e Hidrovias: recuperação do Porto Fluvial de Juazeiro e apoio a projetos logísticos ligados à exploração mineral;
- Transporte Aquaviário e Mobilidade: elaboração de um plano de transporte aquaviário na Baía de Todos os Santos e integração entre metrô, VLT e sistemas metropolitanos de transporte.
DIFERENÇA ENTRE ELES
O atual governador Jerônimo Rodrigues aposta na continuidade de empreendimentos com participação decisiva do Governo Federal, priorizando obras em andamento e novos investimentos vinculados ao Novo PAC, uma ideia de 'continuidade' com o governo federal.
Ronaldo Mansur defende uma atuação mais interventiva do Estado, com ampliação dos investimentos públicos e menor dependência de concessionárias privadas. ACM Neto, por sua vez, propõe algo em contraposição a Mansur, para ampliar a participação do capital privado por meio de concessões, parcerias público-privadas e mecanismos de atração de investimentos.
Apesar das diferenças, todos os três candidatos concordam na defesa da expansão da malha de transportes, da melhoria da logística estadual e da ampliação da infraestrutura como estratégia para estimular o desenvolvimento econômico e a integração territorial da Bahia.
