Clínica na Bahia é acusada de causar cegueira em idosos após mutirão; 31 pacientes teriam sido afetados
Por Francis Juliano
Uma clínica sediada em Irecê, no Centro Norte baiano, é alvo de denúncias após ao menos 31 idosos relatarem perda de visão após mutirões oftalmológicos realizados entre os dias 28 de fevereiro e 1º de março deste ano. Os atendimentos ocorreram na Clínica Ceom, localizada no centro da cidade.
Na ocasião, foram oferecidas, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), aplicações de medicamentos antiangiogênicos, utilizados no tratamento de doenças que afetam a visão. Um dos pacientes submetidos ao procedimento, Gilberto Pontes, morreu na terça-feira (31).
Até esta quarta-feira (1°), não há confirmação de que o óbito tenha relação com as complicações relatadas. O advogado Hermias Sancho, que representa cinco pacientes afetados, afirmou ao Bahia Notícias que a clínica ainda não disponibilizou os prontuários médicos, o que, segundo ele, dificulta a apuração dos casos.
“A gente tem solicitado para que eles [pacientes] entrem em contato com a clínica e solicitem os prontuários que devem ser entregues a eles”, declarou ao BN.
O advogado também orientou que os pacientes busquem avaliação em outras unidades de saúde para diagnóstico das possíveis consequências dos procedimentos realizados.
Quatro dias após o mutirão, a clínica divulgou uma nota informando a ocorrência de intercorrências em 24 pacientes, de um total de 643 procedimentos realizados no período. Segundo o comunicado, 18 desses pacientes teriam recebido alta médica, enquanto os demais permaneceriam internados. Não há atualização sobre o estado de saúde desses pacientes.
Em resposta a denúncia, o Hospital infomou que "concluiu auditoria minuciosa de todos os prontuários relacionados aos atendimentos, com análise técnica detalhada dos registros clínicos, condutas adotadas e fluxos assistenciais". Segundo a organização, os prontuários estão sendo organizados e disponibilizados aos pacientes interessados, na tentativa de garantir a transparência das ações.
Além disso, o CEOM infomou que "seguem em curso as apurações técnicas junto à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e aos órgãos de vigilância em saúde". (A reportagem foi atualizada às 21h do dia 01/04).
Confira o posicionamento na íntegra:
"O Hospital CEOM Irecê informa a atualização dos dados referentes aos eventos adversos observados após procedimentos de terapia antiangiogênica realizados em pacientes acometidos por degeneração macular relacionada à idade (DMRI) ou por retinopatia diabética (RD), nos dias 28 de fevereiro e 1º de março de 2026. No período, foram realizados 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos na unidade de saúde, todos obedecendo critérios médicos pré-determinados pela literatura, com realização de exames prévios específicos, tendo sido identificadas ocorrências em 24 pacientes que realizaram a terapia antiangiogênica no acompanhamento pós-procedimento imediato, número que permanece sob monitoramento contínuo pela equipe assistencial.
O tratamento com antiangiogênico (ou anti-VEGF) no olho é uma injeção intravítrea usada para bloquear o crescimento de vasos sanguíneos anormais e reduzir o vazamento de fluidos na retina. Ele é indicado para tratar doenças graves que causam inchaço na retina e perda de visão, como a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) forma úmida, edema macular diabético, retinopatia diabética proliferativa e oclusões vasculares da retina. Por conta disto, desde a identificação dos casos, todos os pacientes permanecem em acompanhamento ativo, com assistência integral, incluindo avaliações especializadas, terapias medicamentosas e monitoramento evolutivo. Parte significativa dos pacientes já apresenta evolução clínica favorável, com melhora progressiva, conforme registros assistenciais mais recentes.
No âmbito institucional, o CEOM concluiu auditoria minuciosa de todos os prontuários relacionados aos atendimentos, com análise técnica detalhada dos registros clínicos, condutas adotadas e fluxos assistenciais. Como medida de transparência e respeito aos direitos dos pacientes, os prontuários já estão sendo organizados e disponibilizados aos interessados, garantindo pleno acesso às informações assistenciais. Paralelamente, seguem em curso as apurações técnicas junto à Comissão de Controle de Infecção Hospitalar e aos órgãos de vigilância em saúde, bem como as diligências relacionadas à rastreabilidade de insumos.
Com 24 anos de existência, tendo realizado mais de 25 mil procedimentos ao longo dos últimos quatro anos, o Hospital CEOM reafirma seu compromisso absoluto com a segurança do paciente, a transparência institucional e a condução rigorosa das medidas necessárias para completa elucidação dos fatos, permanecendo disposição dos pacientes, da sociedade e das autoridades competentes."
